A fragmentação silenciosa de um país que se julgava imune — e o que ainda podemos fazer
Durante décadas, Portugal foi apresentado nos congressos de ciência política como uma curiosidade reconfortante: a democracia ocidental onde a extrema-direita não conseguia sequer eleger um deputado. Enquanto a Frente Nacional ganhava terreno em França, o AfD se instalava no Bundestag e o Vox irrompia em Espanha, os portugueses exibiam uma espécie de imunidade civilizacional.
O 25 de Abril, dizia-se, tinha vacinado o país contra os autoritarismos. A revolução tinha sido feita com cravos, não com balas. O consenso democrático era sólido.
Era.
DEPUTADOS ELEITOS · ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA · 2019–2025
Seis anos. De zero a segunda força parlamentar. Nenhum analista sério previu esta velocidade. Porque nenhum modelo clássico de ciência política a explicava. O que a explica é precisamente aquilo que Jonathan Haidt descreveu para os EUA: a torre caiu — e nós estávamos a olhar para o outro lado.
A tese de Haidt é que entre 2009 e 2012, os botões "Like", "Retweet" e "Share" — combinados com algoritmos optimizados para engagement emocional — transformaram as redes sociais de ferramentas de conexão em arenas de performance pública. Aquilo que nos EUA se manifestou a partir de 2012, em Portugal acelerou violentamente a partir de 2020. Tivemos um atraso de meia década. Não nos preparámos.
dos portugueses usam redes sociais como principal fonte de notícias
preocupados com desinformação — acima da média global de 58%
queda na confiança em notícias entre 2015 e 2024
aumento de posts sobre imigração no Facebook entre 2024 e 2025
Em 2024, pela primeira vez na história democrática portuguesa, foi detetada intervenção eleitoral estrangeira: investigadores do MediaLab CIES-ISCTE descobriram anúncios patrocinados no YouTube pagos por uma empresa ligada a uma agência publicitária argentina, confirmada pelo Bellingcat.
As narrativas desinformativas dominantes: "Portugal está a ser invadido" e existe uma "islamização" em curso. A torre não caiu de uma só vez. Ruiu em câmara lenta, enquanto discutíamos se era sequer possível que caísse.
O radical é o novo normal.
— Susana Salgado, ISCSP, 2024Haidt utiliza a metáfora de mil milhões de pistolas de dardos: cada publicação pode humilhar, silenciar ou destruir reputações sem processo justo. Em Portugal, esta dinâmica tem uma expressão particularmente dolorosa: a fragmentação familiar.
Não fazia a menor ideia das suas ideias políticas. Nunca pensei que tinha alguém com ideias tão extremadas cá em casa.
— "Ana", 52 anos, mãe, citada pela Lusa (2024)A Ordem dos Psicólogos documentou um padrão crescente: pais que votam à esquerda descobrem, estupefactos, que os filhos votam na extrema-direita. Filhos que consomem exclusivamente TikTok e YouTube vivem em universos informativos completamente separados.
ESTUDO COM PRIMEIROS-VOTANTES 18-21 ANOS · POLITÉCNICO DE COIMBRA · 2024
Polarização afetiva: hostilidade emocional contra quem pensa de forma diferente. Fonte: Ferreira & Ferreira (2024), Social Sciences.
Os dardos não são só digitais. Transformam-se em silêncios à mesa do jantar, em temas evitados no almoço de domingo, em famílias que deixaram de falar de política — não por consenso, mas por medo.
MARKTEST / MEDICARE · ESTUDO NACIONAL DE SAÚDE 2025
Haidt argumenta que a América não ficou mais estúpida porque os americanos ficaram menos inteligentes. O problema é estrutural: quando a dissidência interna é punida, as más ideias são promovidas a política oficial. Em Portugal, o fenómeno tem uma assimetria marcada.
O resultado é um vácuo de sentido no centro. PS e PSD, que durante 50 anos alternaram no poder, veem as fundações corroídas — não por um terramoto, mas pela humidade persistente da desconfiança.
Existe uma tendência crescente para usar a polarização como arma política deliberada.
— Susana Salgado, investigadora, ISCSPNum país de 10 milhões, as redes de confiança são mais densas. É mais difícil demonizar o outro quando se cruza com ele na padaria.
O semipresidencialismo exige compromisso parlamentar. O PR funciona como moderador. Não é infalível — mas é um amortecedor.
Portugal não tem Fox News. Mas para quem tem menos de 30, a fonte é o TikTok — sem editores nem deontologia.
O 25 de Abril ainda é memória viva. Mas estamos na última geração que convive com quem viveu a ditadura.
A abstenção atingiu 51,43% em 2019. Inverteu-se para 40% em 2024, estabilizou em 41,8% em 2025. Mas coincide com a entrada de partidos de ruptura. Os portugueses não voltaram porque recuperaram confiança. Voltaram porque descobriram como expressar a fúria.
A classe dirigente tem de abandonar a narrativa excepcionalista. Portugal não é imune. A regulação e a literacia podem já não ser suficientes — mas isso não é razão para desistir delas.
Não como disciplina optativa. Como prioridade nacional. Cada aluno do 12.º ano deveria distinguir notícia de opinião, identificar desinformação e compreender como funciona um algoritmo.
Quando o Global Media Group paga salários com atraso e os jornalistas fazem a primeira greve em 40 anos, o quarto poder está à mercê dos algoritmos.
Verificação de identidade, limitação da partilha viral, implementação ambiciosa do Digital Services Act. A CNE precisa de recursos para monitorizar desinformação em tempo real.
A tertúlia, o café como espaço público, o debate face a face — são um antídoto para a toxicidade digital. Juntas de freguesia, associações, clubes: trincheiras contra a atomização.
Os 1,1 milhão que votaram no Chega não são um bloco monolítico. Muitos expressam frustração legítima. Chamar-lhes fascistas não os convence — radicaliza-os. Compreender sem validar é o trabalho mais difícil da democracia.
Babel não foi destruída por um inimigo externo. Caiu porque os seus construtores deixaram de se entender.
Portugal tem a mesma maioria exausta. Tem uma vantagem: ainda não se fragmentou tanto que as pontes sejam impossíveis. O cimento ainda não secou. Mas vai secar.
Baseado no ensaio de Jonathan Haidt · "Why the Past 10 Years of American Life Have Been Uniquely Stupid" · The Atlantic, 2022
Adaptação com dados de: OberCom · MediaLab CIES-ISCTE · Ordem dos Psicólogos · Politécnico de Coimbra · Marktest/Medicare · SGMAI