# We Are We

## Uma nação não é aquilo que os líderes decidem. É aquilo que o seu povo repetidamente faz.

Há uma frase que todos já dissemos, provavelmente esta semana: "este país é assim." Dizemo-la na fila que alguém furou, na obra pública atrasada, no favor pedido "por fora", na notícia do político apanhado. E quando a dizemos, apontamos sempre para cima: eles roubam, eles não resolvem, eles não investem, eles não governam.

Quem são "eles"?

Numa democracia, os políticos não pertencem a uma espécie diferente. Vieram das mesmas escolas, das mesmas empresas, das mesmas famílias, das mesmas mesas de café. Partilham, em maior ou menor grau, as mesmas normas sociais que nós. E é por isso que a pergunta mais interessante não é "porque temos estes políticos?", mas antes: que características da nossa sociedade tornam estes comportamentos possíveis?

Este ensaio defende uma tese simples de enunciar e desconfortável de aceitar: uma nação não é uma entidade exterior aos seus habitantes. É continuamente produzida por eles. Os líderes importam, as instituições importam, a história importa. Mas uma sociedade é também o resultado acumulado de milhões de comportamentos quotidianos que determinam aquilo que é normal, tolerável, condenável e possível. Uma nação não é apenas governada pelos seus cidadãos. É, todos os dias, reproduzida por eles.

## O plebiscito de todos os dias

Em 1882, na Sorbonne, Ernest Renan fez a pergunta que dá título à sua conferência mais famosa: o que é uma nação? E rejeitou todas as respostas fáceis. Não é a raça, não é a língua, não é a religião, não é a geografia. Uma nação, disse Renan, é um princípio espiritual assente em duas coisas: a posse comum de um legado de memórias e o consentimento presente de viver em conjunto. A sua fórmula tornou-se célebre: a existência de uma nação é um plebiscito de todos os dias.

Benedict Anderson levou a ideia mais longe em "Imagined Communities" (1983). Uma nação é uma comunidade imaginada, não porque seja falsa, mas porque milhões de pessoas que nunca se conhecerão conseguem imaginar-se pertencentes ao mesmo "nós". E essa comunhão é sempre concebida como uma camaradagem horizontal: é a solidariedade gerada na base, não o comando do Estado, que leva pessoas a sacrificarem-se por um projeto coletivo.

Daqui resulta a primeira ideia essencial: o Estado é uma organização; a nação é uma relação entre pessoas. Portugal não é a Assembleia da República, o Governo ou a administração pública. Portugal também é o que acontece quando duas pessoas que não se conhecem decidem se podem confiar uma na outra. Quando encontramos uma carteira. Quando passamos uma fatura. Quando vemos alguém furar uma fila. Quando votamos. Quando não votamos. Quando dizemos "isto aqui é sempre assim." Esse último gesto talvez seja o mais importante de todos, porque é nesse momento que um comportamento deixa de ser exceção e começa a tornar-se cultura.

## Súbditos ou cidadãos

Em 1963, Gabriel Almond e Sidney Verba publicaram "The Civic Culture", o estudo que fundou a análise comparada das culturas políticas. Distinguiram três formas de um povo se relacionar com o seu país. Na cultura paroquial, o cidadão mal sabe que o poder central existe. Na cultura de súbdito, o cidadão conhece o Estado mas relaciona-se com ele de forma passiva: recebe serviços, recebe decisões, recebe destino. Na cultura participante, o cidadão sente que o sistema também é feito por ele, que a sua ação conta, que a res publica é literalmente coisa sua.

A distinção tem sessenta anos e nunca foi tão atual. Quem diz "eles não resolvem" está a falar como súbdito. Quem pergunta "o que posso eu fazer para que isto se resolva?" está a falar como cidadão. A mesma pessoa pode ser as duas coisas no mesmo dia. A diferença não está no passaporte nem no cargo. Está na postura.

E há uma razão histórica para termos escorregado para a postura de súbdito. Depois da Segunda Guerra Mundial, e por muito boas razões, construímos uma extraordinária cultura de direitos: direitos humanos, direitos sociais, direitos do consumidor, direitos do utente. Foi uma das grandes conquistas civilizacionais do século XX. Mas perdemos pelo caminho a outra face da moeda: os deveres. E não os deveres como fardo ou como sermão, mas os deveres como oportunidade. A pergunta "o que me devem?" tem sempre resposta curta e amarga. A pergunta "como vou eu mudar a sociedade à minha volta? como vou contribuir? como vou pegar no volante?" é a única que abre futuro. Fomos educados a exigir e desaprendemos a construir. Um país de pessoas que só exigem é um país entregue a quem decide. Um país de pessoas que constroem é um país que decide.

## As pequenas decisões não são assim tão pequenas

Isto podia ficar no plano das ideias bonitas. Não fica, porque foi medido.

Em 2019, a revista Science publicou um estudo extraordinário. Investigadores entregaram mais de 17.000 carteiras aparentemente perdidas em 355 cidades de 40 países, em bancos, hotéis, museus e esquadras, e mediram quantas pessoas contactavam o suposto dono. Encontraram diferenças sistemáticas entre sociedades. E uma surpresa: em quase todos os países, as carteiras com dinheiro eram devolvidas com maior probabilidade do que as vazias. O comportamento social não é só cálculo económico. Transportamos connosco normas de honestidade, reputação e identidade moral.

Raymond Fisman e Edward Miguel encontraram um laboratório natural ainda melhor: os diplomatas das Nações Unidas em Nova Iorque, numa época em que a imunidade diplomática eliminava as consequências das multas de estacionamento. Mesmas ruas, mesmas leis, mesma cidade, nenhuma punição. Os diplomatas de países mais corruptos acumulavam significativamente mais multas por pagar. Quando Nova Iorque passou a poder retirar matrículas, as infrações caíram a pique. A experiência demonstra duas coisas ao mesmo tempo: levamos a cultura connosco, e as instituições conseguem modificar o comportamento. Não é cultura ou instituições. São cultura e instituições.

E há um terceiro estudo, publicado na Nature por Simon Gächter e Jonathan Schulz, com 2.568 jovens de 23 países: quem cresceu em sociedades com maior prevalência de corrupção, evasão fiscal e fraude apresentava, em média, menor honestidade intrínseca em testes de laboratório. Não é uma sentença sobre nacionalidades. É algo mais interessante e mais grave: o ambiente moral em que crescemos forma a nossa própria perceção do que é aceitável. Uma sociedade educa-nos muito antes de uma escola o fazer. Educamo-nos uns aos outros.

Se toda a gente estaciona em segunda fila, estacionar em segunda fila deixa de parecer transgressão. Se toda a gente pede uma cunha, a cunha torna-se mecanismo social normal. Se fugir aos impostos é contado à mesa como esperteza, a moral fiscal altera-se. Uma cultura não é aquilo que uma sociedade diz que valoriza. É aquilo que recompensa, tolera e repete.

## A confiança é uma infraestrutura invisível

Robert Putnam passou vinte anos a estudar por que razão os governos regionais criados em Itália em 1970, todos com o mesmo desenho institucional, funcionavam tão bem no Norte e tão mal no Sul. A resposta que encontrou em "Making Democracy Work" (1993) não estava nos organismos de fiscalização, mas nos corais, nos clubes desportivos e nas associações culturais. Chamou-lhe capital social: as redes, normas e confiança que facilitam a ação coordenada. E deixou uma conclusão que devia estar afixada em todos os ministérios: é a sociedade civil que cria riqueza, não a riqueza que cria a sociedade civil.

A evidência acumulou-se desde então. Knack e Keefer mostraram que confiança e normas cívicas estão associadas ao desempenho económico. Tabellini encontrou a mesma relação entre regiões europeias. Guiso, Sapienza e Zingales mostraram que, nas regiões italianas de maior confiança, as famílias usam mais os mercados financeiros e as empresas têm melhor acesso ao crédito. Nos inquéritos de valores mundiais, mais de 65% dos dinamarqueses, noruegueses e finlandeses dizem que "a maioria das pessoas é de confiança."

Porquê tanta importância? Porque a confiança reduz custos. Imagine duas sociedades. Numa, cada contrato precisa de trinta páginas, cada transação exige garantias, os empresários presumem que serão enganados e os cidadãos presumem que o Estado os enganará. Noutra, a maioria cumpre, e os contratos não precisam de antecipar todas as formas imagináveis de fraude. A segunda sociedade tem uma infraestrutura invisível. Não aparece nas autoestradas nem diretamente no PIB, mas permite que praticamente tudo funcione melhor.

E há um ciclo perverso escondido aqui, identificado por Aghion, Algan, Cahuc e Shleifer: sociedades de baixa confiança pedem mais regulação ao Estado, e mais regulação dificulta o desenvolvimento do capital social que resolveria o problema. Desconfiança gera regulação, que gera desconfiança. É assim que sociedades diferentes permanecem diferentes durante décadas. Não por essência nacional, mas porque os comportamentos se autoalimentam. A certa altura dizemos "este país é assim." Mas o país não caiu do céu assim. Fomos construindo o equilíbrio.

## Mas então os líderes não são responsáveis?

São. Muito. E é aqui que a tese tem de ficar honesta.

Jones e Olken estudaram mudanças de líderes provocadas por mortes inesperadas no poder e encontraram evidência robusta de que líderes individuais alteram trajetórias económicas. Mas o efeito era muito maior em autocracias, onde havia menos restrições ao poder. A conclusão é preciosa: quanto melhores forem as instituições de uma sociedade, menos essa sociedade depende da qualidade moral de uma única pessoa. Talvez seja esta a melhor definição de país desenvolvido: não o que encontra sempre governantes extraordinários, mas o que funciona razoavelmente bem mesmo quando os governantes são medíocres.

Acemoglu e Robinson, Nobel da Economia de 2024, mostraram em "Why Nations Fail" que as nações prosperam com instituições inclusivas e definham com instituições extractivas. Mas o ponto decisivo do livro é frequentemente esquecido: não há nada de natural na emergência de instituições inclusivas. Elas surgem quando os que perdem com o sistema se organizam e forçam a mudança. As instituições não caem do céu. São conquistadas de baixo para cima.

E os cidadãos, quando têm informação e mecanismos, disciplinam de facto os políticos. O Brasil forneceu a experiência quase perfeita: a partir de 2003, municípios foram sorteados para auditorias federais com resultados publicados. Ferraz e Finan descobriram que a divulgação de corrupção reduzia a reeleição dos envolvidos, sobretudo onde havia rádio local para espalhar a informação. Autarcas que podiam recandidatar-se desviavam cerca de 27% menos recursos. O eleitor não é apenas consumidor de política. Pode ser parte do mecanismo de controlo.

A responsabilidade, contudo, não é simétrica. Um desempregado e um primeiro-ministro não têm a mesma capacidade de determinar o destino nacional. Um cidadão de uma ditadura não pode ser responsabilizado como um cidadão de uma democracia. Poder gera responsabilidade, e quanto maior o poder, maior a responsabilidade. Mas daqui não resulta que quem tem pouco poder tenha zero responsabilidade. A responsabilidade por uma sociedade é desigual, mas é distribuída.

## Capítulo Portugal: entre a saída e a voz

Se há país onde esta tese ganha carne, é o nosso. E a história começa da melhor maneira possível.

Na madrugada de 25 de Abril de 1974, os militares do MFA pediam pela rádio que as pessoas ficassem em casa. O povo, felizmente, não obedeceu. Saiu à rua, acompanhou as colunas de Salgueiro Maia do Terreiro do Paço ao Largo do Carmo, e uma mulher chamada Celeste Caeiro distribuiu cravos aos soldados, dando nome à revolução. Foi um golpe militar que só se tornou uma revolução democrática porque os cidadãos decidiram fazer parte dela. Nas primeiras eleições livres, em 1975, a abstenção foi de cerca de 8%. Fomos, por um momento, um dos povos mais participativos da Europa.

Cinquenta anos depois, os números contam outra história. A confiança generalizada nos outros ronda os 17% em Portugal, contra 74% na Dinamarca. No voluntariado estamos no fundo da tabela europeia, com cerca de 12% contra uma média de 24%. A percentagem de portugueses que não pertencem a nenhuma associação subiu de 66% em 1990 para 84% em 2008, herança do analfabetismo e da proibição de livre associação durante o Estado Novo. A abstenção nas legislativas passou dos 8% de 1975 para um recorde de 51% em 2019, e mantém-se acima dos 40% desde 2009. E no Índice de Perceção da Corrupção de 2024 tivemos o pior resultado de sempre.

Meio século de Estado Novo treinou-nos na cultura de súbdito: o Estado decidia, o povo recebia, e associar-se livremente era proibido. O 25 de Abril devolveu-nos os direitos de cidadãos num só dia; a postura de cidadãos, essa, ainda estamos a construí-la.

Albert Hirschman deu-nos, em 1970, o vocabulário exato para ler este retrato. Perante a deterioração de uma organização ou de um país, temos duas respostas: a saída (partir, emigrar, desistir) e a voz (protestar, exigir, mudar por dentro). Portugal, país de emigração histórica, escolheu demasiadas vezes a saída. E há uma forma de saída mais subtil do que o aeroporto: ficar, mas desistir. Culpar "eles" é a forma mais confortável de sair sem sair. O queixume é a abstenção do quotidiano.

## O país é feito dos que cá ficam

A saída não é uma metáfora. É a nossa constante mais antiga. O historiador Vitorino Magalhães Godinho chamou à emigração portuguesa uma "constante estrutural" da nossa história, o fio que liga os homens que partiram do Tejo no século XV aos que hoje partem do aeroporto Humberto Delgado. Os Descobrimentos foram, entre muitas outras coisas, a primeira grande exportação dos nossos mais aventureiros. Entre 1960 e 1974 saíram perto de milhão e meio de portugueses, uma média de cem mil por ano, a maioria clandestinamente, "a salto", para França e para a Alemanha. Durante a crise da troika, o filme repetiu-se: cerca de 120 mil saídas só em 2013. Hoje, segundo as estimativas das Nações Unidas divulgadas pelo Observatório da Emigração, há 1,8 milhões de pessoas nascidas em Portugal a viver no estrangeiro, uma taxa de 17,3% face à população residente, uma das maiores diásporas acumuladas da Europa. E o dado mais duro de todos: cerca de três em cada dez portugueses nascidos no país com idades entre os 15 e os 39 anos, mais de 850 mil pessoas, vivem hoje fora. Um estudo da Federação Académica do Porto concluiu que mais de 73% dos estudantes do ensino superior ponderam emigrar e um quarto já decidiu sair.

Ora, a economia das migrações mostra que quem parte não é uma amostra aleatória de quem fica. Desde Chiswick e Borjas que sabemos que a emigração tende a selecionar os mais motivados, os mais tolerantes ao risco, os mais inconformados: partir exige exatamente a iniciativa que faz falta para mudar as coisas cá dentro. Uma precisão honesta: não se trata sobretudo de diplomas. O Banco de Portugal mostrou em 2025 que os jovens emigrantes não são, em média, mais qualificados do que os que ficam (31% com ensino superior contra 39% entre os residentes, em 2021). A seleção é de atitude, não de canudo. E o próprio Estado Novo sabia o que estava a fazer: em 1969, um alto responsável dos Negócios Estrangeiros admitia que, sem a saída de um milhão de pessoas nas duas décadas anteriores, o país enfrentaria "trágicas consequências de ordem política". A emigração foi, durante décadas, a válvula de escape que aliviou a pressão que teria forçado a mudança. Lido com Hirschman, o mecanismo é claro: cada partida de um inconformado é uma voz que o país perde. Não por acaso, o período da nossa história com menos emigração foi o que se seguiu ao 25 de Abril, quando a voz, por fim, foi dada a todos. O país é feito dos que cá ficam. Razão a mais para que os que cá ficam não desistam também.

## Trabalhadores mas não produtivos

Há um segundo paradoxo português que merece ser olhado de frente, porque desmonta a acusação fácil e aponta para a verdadeira causa. Cada um de nós é um herói na sua própria vida: luta, trabalha, por vezes de sol a sol. Os números confirmam o esforço. Trabalhamos, em média, 37,4 horas por semana, contra 35,9 na União Europeia, e estamos entre os países da UE com mais gente a cumprir 49 horas ou mais. E, no entanto, a nossa produtividade por hora foi, em 2025, de apenas 66,8% da média europeia, a quarta mais baixa da União, segundo o Eurostat. Cada hora de trabalho gera em Portugal cerca de 54 euros de riqueza, contra 65 na média da OCDE. Não é falta de esforço. É falta de resultados.

E os resultados medem-se na comparação. Em 2001, Portugal valia 84,1% da média europeia em PIB per capita; em 2024 valia 82,4%. Mais de vinte anos para regressar ao ponto de partida, enquanto a Chéquia, a Eslovénia e a Lituânia, que entraram na União dezoito anos depois de nós, nos ultrapassavam, com a Estónia e a Polónia coladas. Quando nos comparamos com o norte da Europa e com as novas economias do leste, vamos ficando para trás.

A tentação é moralizar o trabalhador. Seria factualmente errado: quem trabalha 37 horas e produz 54 euros por hora não é preguiçoso, está inserido num sistema pobre. A investigação aponta as causas para a estrutura: empresas demasiado pequenas (as microempresas são mais de 92% do tecido), pouco capital, e sobretudo gestão fraca. O World Management Survey de Bloom, Sadun e Van Reenen coloca consistentemente Portugal no fundo da tabela europeia de práticas de gestão, e cerca de metade dos empregadores portugueses tem, no máximo, o ensino básico, contra 17% na média da UE. Um povo pode trabalhar muito e produzir pouco se estiver organizado em sistemas pobres. A produtividade nasce da inteligência organizada, não do suor.

E há uma última faceta deste paradoxo, a mais portuguesa de todas: sabemos diagnosticar, mas não atuar. Somos um país de relatórios brilhantes, estratégias nacionais e planos que raramente saem do papel. O estudo de Nuno Palma e James Robinson, Nobel da Economia, encomendado pela CIP e divulgado em 2026, di-lo sem rodeios: Portugal não falha por falta de diagnósticos, mas por dificuldades de execução, com a lentidão da justiça administrativa a funcionar "como um imposto sobre quem ousa desafiar o Estado". É a versão coletiva do mesmo padrão: diagnosticamos muito e executamos pouco, tal como trabalhamos muito e rendemos pouco, tal como saímos em vez de mudarmos. Três sintomas, uma doença: a energia existe, o sistema que a transforma em resultado é que não.

Mas a mesma história portuguesa desmente o fatalismo. A 12 de março de 2011, a Geração à Rasca levou centenas de milhares de pessoas à rua na maior manifestação apartidária desde o 25 de Abril, convocada pela internet, sob um lema roubado a Saramago: fazer de cada cidadão um político. Mais de 90% dos bombeiros portugueses são voluntários, sustentados por 413 associações humanitárias, numa das mais antigas tradições associativas do país. O movimento Casa para Viver juntou dezenas de organizações e encheu ruas em mais de vinte cidades entre 2023 e 2024. Os estudantes do clima esperavam 500 pessoas num protesto em Lisboa e apareceram mais de 6.000. A capacidade cívica existe. O que falta é torná-la hábito em vez de exceção.

## Nós fazemos o sistema e depois o sistema faz-nos a nós

Talvez o verdadeiro assunto deste ensaio nem sequer seja política. É emergência.

Nenhum peixe cria um cardume. Nenhuma abelha cria uma colmeia. Nenhum neurónio cria consciência. Nenhuma pessoa individual cria a cultura portuguesa. Mas o comportamento agregado produz propriedades que não existem em nenhuma das partes. Uma nação é um fenómeno emergente: milhões de pequenas decisões que produzem uma coisa muito maior chamada sociedade.

A criança nasce dentro de instituições, normas e hábitos que não escolheu. Aprende-os. Reproduz alguns, rejeita outros, modifica alguns. Depois transmite uma versão desse mundo à geração seguinte. É assim que uma cultura persiste. É também, exatamente pelo mesmo mecanismo, assim que muda.

Por isso não escrevo a frase fácil de que cada povo tem os governantes que merece. É simplista e, em muitos contextos, injusta. Escrevo antes isto: nem sempre temos o país que merecemos, mas, com o tempo, tendemos a reproduzir o país cujos comportamentos normalizamos, cujas instituições toleramos e cujos valores praticamos.

## E se não ganharmos?

Falta responder ao leitor mais difícil de convencer: o cínico bem informado. Aquele que leu até aqui e pergunta, com toda a razão aparente, "mas vale a pena? o meu gesto muda alguma coisa? vamos ganhar?"

A pergunta parece sensata e é uma armadilha. É a lógica do cálculo permanente: só ajo se a folha de contas garantir resultado. Aplicada à cidadania, esta mentalidade é uma receita para o desastre, porque nenhum gesto cívico individual garante resultado, e portanto o cálculo recomenda sempre a inércia. Se todos calcularem assim, o resultado está garantido: nada muda, e o cínico pode dizer que tinha razão. A profecia cumpre-se a si própria.

Há duas respostas. A primeira é estatística e já a demos: os gestos agregam-se, e a cultura é feita da soma deles. A segunda é ética, e é mais funda. Há coisas que se fazem porque são certas, ganhe-se ou perca-se. Há batalhas que têm de ser travadas porque o que está em jogo é demasiado importante, e porque queremos estar do lado certo da história. Não controlo se o meu vizinho vai fazer a coisa certa. Controlo se eu a faço. E se as coisas correrem mal, que não seja por minha causa.

Quem age assim não está a ser ingénuo. Está a recusar ser súbdito. A dignidade de um cidadão não depende do resultado; depende da postura. E, ironia das ironias, é precisamente das sociedades onde muita gente age sem garantia de resultado que os resultados acabam por vir.

## O plebiscito de amanhã de manhã

Renan dizia que uma nação é um plebiscito de todos os dias. Talvez hoje possamos atualizar a ideia: uma nação é uma decisão de todos os dias. Não apenas a decisão extraordinária que tomamos numa urna de quatro em quatro anos, mas a decisão banal que tomamos quando ninguém está a olhar.

A fatura que pedimos ou não pedimos. A fila que respeitamos ou furamos. A associação a que damos ou não damos duas horas por mês. O voto que usamos ou desperdiçamos. A cunha que aceitamos ou recusamos. A frase "isto aqui é sempre assim", que repetimos ou interrompemos.

Nenhum destes gestos muda um país. Todos eles, agregados e repetidos, são o país.

Porque, no fim, não estamos a viver no país de outra pessoa.

We are not living in somebody else's country.

We are the country.

We are we.

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### Referências principais

Ernest Renan, "Qu'est-ce qu'une nation?" (1882). Benedict Anderson, "Imagined Communities" (1983). Gabriel Almond e Sidney Verba, "The Civic Culture" (1963). Alexis de Tocqueville, "Da Democracia na América" (1835). E. P. Thompson, "The Making of the English Working Class" (1963). Robert Putnam, "Making Democracy Work" (1993) e "Bowling Alone" (2000). Daron Acemoglu e James Robinson, "Why Nations Fail" (2012), Nobel da Economia 2024. Elinor Ostrom, "Governing the Commons" (1990), Nobel da Economia 2009. Albert Hirschman, "Exit, Voice, and Loyalty" (1970). Cohn et al., "Civic Honesty Around the Globe", Science (2019). Fisman e Miguel, "Corruption, Norms and Legal Enforcement" (NBER). Gächter e Schulz, "Intrinsic Honesty and the Prevalence of Rule Violations across Societies", Nature (2016). Knack e Keefer, "Does Social Capital Have an Economic Payoff?", QJE (1997). Tabellini, "Culture and Institutions", JEEA (2010). Aghion, Algan, Cahuc e Shleifer, "Regulation and Distrust" (NBER). Jones e Olken, "Do Leaders Matter?", QJE (2005). Ferraz e Finan, estudos sobre auditorias e corrupção no Brasil (QJE e NBER). Transparency International, Índice de Perceção da Corrupção 2024. Integrated Values Surveys (WVS-EVS, vaga 2017-2022). Eurobarómetro Especial 75.2 sobre voluntariado. Dados de abstenção: CNE/Pordata. Observatório da Emigração (CIES-Iscte), estimativas ONU 2024 e Portuguese Emigration Factbook 2024. Vitorino Magalhães Godinho, "L'émigration portugaise (XVe-XXe siècle): une constante structurale" (1978). Victor Pereira, "A Ditadura de Salazar e a Emigração" (2014). Chiswick (1978, 1999) e Borjas (1987) sobre autosseleção migratória; Borjas, Kauppinen e Poutvaara, The Economic Journal (2019). Banco de Portugal, estudo sobre qualificações dos jovens emigrantes (2025). CEFAP/Federação Académica do Porto, estudo sobre intenção de emigração 2023/2024. Eurostat, horas semanais trabalhadas e produtividade por hora (2025) e PIB per capita em PPS (2001-2024). Bloom, Sadun e Van Reenen, World Management Survey. Nuno Palma e James A. Robinson, "Unlocking Portugal's Growth" (CIP/IDL, 2026).