# Vamos conseguir cooperar a tempo?

## O verdadeiro teste pode já não ser tecnológico

Há uma ideia relativamente confortável sobre a humanidade que talvez nos esteja a fazer perder tempo. A ideia de que, perante uma ameaça suficientemente grande, acabamos sempre por nos entender. Podemos discutir durante anos, negar evidências, defender interesses particulares e adiar decisões difíceis, mas quando o perigo se torna impossível de ignorar reagimos. A história oferece exemplos poderosos que alimentam esta confiança. Erradicámos a varíola, conseguimos construir um acordo internacional eficaz para proteger a camada de ozono, reconstruímos sociedades devastadas por guerras e, perante a Covid-19, desenvolvemos e produzimos vacinas numa velocidade que teria parecido improvável poucos anos antes.

Há, contudo, um problema nesta leitura optimista da história. Muitas vezes cooperámos depois de o perigo se ter tornado evidente. E talvez algumas das transformações que hoje estamos a produzir no mundo não nos concedam esse tempo.

Estamos perante uma combinação pouco habitual de velocidade, escala e interdependência. A Inteligência Artificial evolui mais depressa do que a legislação, a educação, as organizações e provavelmente a nossa própria capacidade de compreender todas as suas consequências. O Stanford AI Index 2026 mostra que mais de 90% dos modelos de fronteira considerados relevantes em 2025 foram produzidos pela indústria e que a capacidade dos modelos continua a avançar rapidamente. Ao mesmo tempo, os mecanismos de avaliação de segurança não estão a acompanhar o mesmo ritmo: os incidentes de IA documentados na AI Incident Database passaram de 233 em 2024 para 362 em 2025. É importante não transformar este último número numa falsa certeza. Um crescimento de incidentes registados pode significar mais problemas, melhor detecção ou ambas as coisas. Mas a tendência confirma pelo menos uma assimetria preocupante entre capacidade tecnológica e capacidade de avaliação.

A IA não está sozinha. O clima, a biotecnologia, a competição geopolítica, a cibersegurança, a transformação do trabalho e a fragmentação do espaço informacional interagem entre si. O Global Risks Report 2026 do World Economic Forum coloca a confrontação geoeconómica no topo das preocupações imediatas dos especialistas inquiridos, seguida pelo conflito entre Estados, enquanto desinformação e polarização aparecem entre os principais riscos no horizonte dos próximos anos. Mais uma vez, importa ser preciso: este relatório mede a percepção de milhares de líderes e especialistas sobre riscos, não demonstra que esses acontecimentos sejam inevitáveis. Mas é um bom termómetro da deterioração das expectativas de cooperação internacional.

Talvez nunca tenhamos possuído tanta capacidade para transformar o mundo. A pergunta é se desenvolvemos, à mesma velocidade, a capacidade colectiva para decidir como queremos transformá-lo.

É aqui que a velha discussão sobre sermos uma espécie cooperativa ou competitiva deixa de ser filosófica e passa a ser uma questão de sobrevivência institucional.

## Não somos altruístas. Também não somos apenas egoístas

Durante muito tempo pareceu-me intuitiva uma visão relativamente desconfiada da cooperação humana. O homem coopera, sim, mas frequentemente porque precisa. Coopera para se proteger, para alcançar algo que sozinho não conseguiria, para pertencer ao grupo, para reduzir o perigo ou porque sabe que haverá consequências se não o fizer. Perante uma catástrofe é capaz de uma generosidade extraordinária. Perante a perspectiva de sacrificar hoje uma parte do seu conforto em benefício de pessoas desconhecidas ou de uma geração futura, a disponibilidade parece diminuir rapidamente.

Há muita verdade nesta intuição, mas a investigação obriga a modificá-la.

Crianças muito pequenas já manifestam comportamentos de ajuda antes de dominarem sistemas sofisticados de recompensa, reputação ou punição. Nos trabalhos de Felix Warneken e Michael Tomasello, crianças com cerca de 18 meses ajudavam espontaneamente adultos a alcançar objectivos, e estudos posteriores encontraram formas básicas de ajuda também em chimpanzés. A cooperação não é, portanto, exclusivamente produto da lei ou de um cálculo consciente de interesse. Há mecanismos de sociabilidade e de ajuda profundamente precoces no desenvolvimento humano.

Mas isto não significa que sejamos santos por natureza. A investigação de Urs Fischbacher, Simon Gächter e Ernst Fehr sobre bens públicos encontrou uma configuração muito mais interessante. Cerca de metade dos participantes comportava-se como aquilo a que os investigadores chamaram **cooperadores condicionais**: contribuíam mais quando acreditavam que os outros também contribuíam. Cerca de um terço comportava-se como free rider, procurando beneficiar sem contribuir proporcionalmente.

Esta distinção é essencial porque altera completamente a pergunta. Talvez a principal dificuldade da cooperação não seja convencer cada pessoa da existência de um bem comum. Talvez seja convencê-la de que os outros não vão aproveitar-se do seu sacrifício.

Fehr e Gächter encontraram ainda outro comportamento aparentemente estranho: pessoas dispostas a gastar os seus próprios recursos para punir quem não cooperava, mesmo quando não retiravam qualquer benefício material directo dessa punição. Chamaram-lhe altruistic punishment. O comportamento parece irracional quando analisado apenas ao nível individual, mas torna-se compreensível se a punição do oportunista funcionar como defesa do sistema cooperativo.

Talvez sejamos, portanto, uma espécie muito mais interessante do que a oposição entre egoísmo e altruísmo permite perceber. Somos capazes de generosidade, mas observamos o comportamento dos outros. Queremos contribuir, mas queremos reciprocidade. Aceitamos perder alguma coisa pelo colectivo, mas reagimos quando concluímos que alguém transformou a nossa cooperação numa oportunidade para benefício próprio.

A justiça percebida não é um adorno moral da cooperação. É uma das suas infraestruturas.

## De Aristóteles a Hobbes: o problema é mais antigo do que parece

Aristóteles via o ser humano como um animal político, alguém cuja vida só alcança plenamente a sua expressão dentro de uma comunidade organizada. Não se tratava apenas de dizer que gostamos da companhia dos outros. Na sua concepção, a capacidade de linguagem permite-nos discutir o justo, o injusto e o bem comum, tornando a vida política parte da própria condição humana.

Hobbes começa quase no extremo oposto. Se não existir uma autoridade capaz de garantir que os outros cumprem os seus compromissos, mesmo indivíduos racionais interessados na paz têm razões para desconfiar uns dos outros. O medo, a competição e a incerteza tornam possível um estado permanente de conflito. A solução hobbesiana é o poder comum capaz de tornar os compromissos credíveis. Para Hobbes, o medo não é um acidente na construção da ordem política. É uma das suas motivações fundamentais.

Rousseau introduz uma correcção importante à visão excessivamente sombria da natureza humana. Para ele existe uma disposição original para a compaixão, uma *pitié* que nos leva a preocuparmo-nos com o sofrimento do outro, desde que isso não ameace directamente a nossa própria sobrevivência. É a evolução da sociedade, com a comparação permanente, o estatuto e a dependência da opinião alheia, que cria outras formas de rivalidade.

Dois milénios de distância entre Aristóteles e nós, três séculos entre Hobbes e Rousseau, e continuamos presos à mesma tensão. Precisamos dos outros. Conseguimos preocupar-nos com eles. E simultaneamente receamos que eles se aproveitem de nós.

A investigação contemporânea não resolveu a disputa. Tornou-a mais complexa.

Michael Tomasello tem defendido que uma das capacidades particularmente importantes do ser humano é a **intencionalidade partilhada**, a possibilidade de construirmos um objectivo que já não é apenas "eu quero fazer isto" ou "tu queres fazer aquilo", mas "nós vamos fazer isto". Crianças entre um e dois anos apresentam capacidades de atenção conjunta, comunicação cooperativa e colaboração que ajudam a compreender como esse "nós" começa a emergir.

Talvez a grande inovação humana nunca tenha sido o indivíduo racional.

Talvez tenha sido a capacidade de inventar o "nós".

## A catástrofe consegue criar um "nós", mas não sabemos qual

A hipótese de que uma grande ameaça nos une encontra apoio empírico, mas com uma ressalva importante.

Depois dos terramotos devastadores de Fevereiro de 2023 na Turquia, investigadores entrevistaram sobreviventes nas regiões mais afectadas. Encontraram uma relação entre a percepção de sofrimento partilhado, a identificação com outros sobreviventes e a disponibilidade para os ajudar. Num resultado particularmente forte, os participantes declararam uma disponibilidade para ajudar outros sobreviventes turcos comparável à que demonstravam relativamente às próprias famílias. Parte dessa identificação estendia-se também a refugiados sírios afectados pela mesma catástrofe.

Isto confirma algo profundamente humano. Uma experiência extrema pode apagar temporariamente fronteiras anteriores e criar uma identidade comum.

Mas não devemos construir a nossa esperança civilizacional sobre esta possibilidade.

Um estudo realizado durante a crise entre os Estados Unidos e o Irão em 2020 testou precisamente a ideia de que um inimigo comum reduz divisões internas. Entre determinados participantes politicamente muito polarizados aconteceu o contrário: a exposição ao inimigo externo diminuiu a disposição para aprender com membros do partido adversário. Os autores foram cautelosos quanto à generalização, mas o resultado basta para destruir a ideia simples de que uma ameaça comum nos une automaticamente.

A catástrofe não produz necessariamente solidariedade.

Pode produzir solidariedade **dentro de um grupo** e hostilidade perante outro.

Pode produzir um "nós", mas a questão decisiva passa a ser quem fica incluído nesse pronome.

Uma sociedade onde existe confiança suficiente pode interpretar uma crise como um desafio comum. Uma sociedade que entra na mesma crise profundamente polarizada pode procurar inimigos internos, culpados ou traidores. O perigo, por si só, não decide qual destas respostas prevalece. As condições anteriores contam.

E é aqui que o momento actual se torna particularmente desconfortável.

## Estamos a entrar na tempestade com pouca confiança

O OECD Trust Survey 2026, baseado em dados recolhidos em 2025 em 33 países da OCDE e cinco países candidatos, encontrou apenas 40% dos inquiridos com confiança alta ou moderadamente alta no governo nacional, enquanto 43% declaravam pouca ou nenhuma confiança.

Mas há um número que me parece ainda mais importante. Embora 68% considerem que votar influencia aquilo que o governo faz, apenas 31% sentem que pessoas como elas têm realmente voz nas decisões governamentais. Entre aqueles que sentem que têm voz política e aqueles que sentem que não têm existe uma diferença de 47 pontos percentuais na confiança no governo.

Não devemos concluir daqui que "as pessoas deixaram de confiar na democracia". O próprio estudo mostra níveis superiores de confiança na polícia, nos tribunais, na administração pública e nos governos locais, e a situação varia muito entre países. O dado interessante é outro: **sentir que se participa na decisão está profundamente associado à confiança na instituição que decide**.

Isto tem enormes implicações para as transições que temos pela frente.

É difícil pedir às pessoas para aceitarem mudanças dolorosas no emprego, maiores custos de energia, novas regras ambientais, transformações provocadas pela IA ou limitações de determinados comportamentos se elas acreditarem que não participaram na decisão, que os custos não estão igualmente distribuídos ou que os mais poderosos conseguirão escapar às regras.

Uma sociedade pode pedir sacrifícios.

O que dificilmente consegue fazer durante muito tempo é pedir sacrifícios aos muitos enquanto estes acreditam que as excepções pertencem aos poucos.

Há ainda sinais de deterioração democrática que merecem atenção, embora também aqui a precisão seja importante. O V-Dem Democracy Report 2026, utilizando a metodologia própria do projecto e dados até ao final de 2025, conclui que o nível de democracia experimentado pelo cidadão médio mundial regressou aproximadamente aos níveis de 1978 e calcula que 41% da população mundial vive actualmente em países que classifica como estando em processos de autocratização. O relatório contabiliza 44 países nessa trajectória. Estes valores devem ser lidos como resultados de um índice académico complexo, sujeito a escolhas metodológicas e discussão científica, não como medições directas comparáveis à temperatura ou à população. Ainda assim, a dimensão e a direcção da tendência merecem ser levadas a sério.

O problema que se começa a desenhar é perigoso: **os desafios que exigem cooperação colectiva estão a crescer precisamente quando algumas das condições sociais necessárias para essa cooperação se encontram sob pressão.**

## Ostrom percebeu que o problema não se resolve apenas com autoridade

Se Hobbes estivesse vivo, talvez olhasse para esta instabilidade e pedisse instituições mais fortes. E teria parcialmente razão. Mas Elinor Ostrom mostrou que a alternativa entre um Estado central omnipotente e indivíduos entregues ao interesse próprio é demasiado pobre.

Durante décadas, Ostrom estudou comunidades que partilhavam recursos escassos: florestas, pescas, sistemas de irrigação, pastagens e reservas de água. Encontrou muitos casos em que essas comunidades conseguiam gerir sustentavelmente recursos comuns sem privatização integral e sem depender exclusivamente de controlo central.

Mas é importante não romantizar a descoberta.

Ostrom não encontrou comunidades onde todos eram naturalmente bons.

Encontrou **boas regras**.

Os sistemas que funcionavam tendiam a apresentar direitos e responsabilidades claramente definidos, correspondência razoável entre benefícios e obrigações, monitorização, mecanismos acessíveis de resolução de conflitos, possibilidade de participação dos utilizadores na criação das regras e sanções graduais para quem repetidamente as violava.

Isto talvez contenha uma das pistas mais importantes para o século XXI.

Não precisamos de esperar que as pessoas se tornem moralmente superiores. Precisamos de construir contextos em que cooperar faça sentido, em que o oportunismo seja detectado, em que a regra pareça legítima e em que quem suporta o custo perceba que os outros estão sujeitos ao mesmo jogo.

As leis ambientais, os impostos ou a regulação tecnológica não são necessariamente demonstrações do fracasso moral do ser humano. Muitas vezes são tecnologias de coordenação. Resolvem aquilo que individualmente não conseguimos resolver porque cada pessoa depende do comportamento das restantes.

A lei, neste sentido, não substitui a cooperação.

Pode torná-la possível em escalas onde a confiança pessoal já não chega.

## Já provámos que conseguimos cooperar globalmente

Se quisermos construir uma teoria pessimista da humanidade, teremos de explicar alguns factos incómodos.

A varíola existiu durante milhares de anos e matou centenas de milhões de pessoas ao longo da história. A OMS intensificou o programa global de erradicação em 1967 através de vacinação, vigilância e contenção. O último caso natural conhecido ocorreu na Somália em 1977 e a Assembleia Mundial da Saúde declarou a doença erradicada em 1980. Continua a ser a única doença infecciosa humana erradicada globalmente.

É difícil imaginar um exemplo mais concreto de cooperação planetária.

Também o Protocolo de Montreal contraria qualquer fatalismo fácil. Adoptado em 1987 para controlar substâncias que destruíam a camada de ozono, conseguiu uma participação praticamente universal e a eliminação de cerca de 99% das substâncias destruidoras do ozono controladas pelo acordo. Mantendo-se o cumprimento, as projecções indicam que o ozono total deverá regressar aproximadamente aos valores de 1980 por volta de 2040 entre 60ºN e 60ºS, por volta de 2045 no Árctico e cerca de 2066 na Antárctida.

Não houve súbita conversão moral da humanidade.

Houve ciência suficientemente sólida, um problema relativamente identificável, capacidade de verificar produção e consumo, tecnologias substitutas, compromissos internacionais e mecanismos financeiros que ajudaram países com menor capacidade económica.

O sucesso não nasceu de sermos bons.

Nasceu de termos conseguido **desenhar a cooperação**.

As alterações climáticas mostram como essa tarefa se torna mais difícil quando o problema está profundamente integrado no funcionamento normal da economia. O UNEP Emissions Gap Report 2025 estima que, se as contribuições nacionais anunciadas forem integralmente implementadas, o aquecimento neste século ficará aproximadamente entre 2,3°C e 2,5°C. Com as políticas actualmente implementadas, a projecção é cerca de 2,8°C. Há progresso relativamente a avaliações anteriores, mas o próprio UNEP nota que parte da melhoria decorre de alterações metodológicas e que as novas promessas, por si só, mudaram pouco a trajectória.

A leitura correcta não é "Paris resolveu o clima".

Também não é "a cooperação climática não serviu para nada".

É muito menos confortável: **conseguimos mudar a trajectória, mas ainda não suficientemente**.

Talvez esta frase descreva uma parte significativa da história humana.

## A Covid mostrou duas humanidades ao mesmo tempo

A pandemia ofereceu outro laboratório gigantesco.

Por um lado, tivemos uma mobilização científica sem precedentes na escala e na velocidade. Por outro, quando os recursos se tornaram escassos, a cooperação global encontrou rapidamente as fronteiras do Estado-nação.

Em Maio de 2022, a OMS e os parceiros do COVAX mostravam a dimensão do contraste. Apenas 16% das pessoas em países de baixo rendimento tinham recebido pelo menos uma dose de vacina, contra cerca de 80% nos países de alto rendimento. O COVAX já tinha enviado mais de 1,3 mil milhões de doses para 87 países de baixo e médio-baixo rendimento, mas não conseguira eliminar a desigualdade de acesso.

No final de 2021, o próprio grupo independente de alocação do COVAX criticava explicitamente os países ricos por terem contornado o mecanismo multilateral e estabelecido contratos directos que lhes garantiram acesso prioritário.

É difícil encontrar uma experiência mais reveladora.

Conseguimos criar conhecimento globalmente.

Quando chegou o momento de repartir um recurso escasso, regressámos ao grupo.

Não demonstra que a cooperação falha sempre. Demonstra que a cooperação e a competição podem existir dentro do mesmo acontecimento, em escalas diferentes.

E talvez esta seja precisamente a chave para compreender o século XXI.

## A escala das consequências ultrapassou a escala das nossas identidades

Durante quase toda a história humana, a maioria das consequências das nossas decisões era relativamente próxima. Hoje isso deixou de ser verdade.

Uma decisão tomada numa empresa tecnológica na Califórnia pode afectar programadores na Índia, professores em Portugal, eleições na Europa e mercados de trabalho na América Latina. Uma emissão produzida num país altera um sistema climático partilhado. Uma nova variante viral atravessa continentes em dias. Uma tecnologia pode ser reproduzida em milhares de organizações praticamente de imediato.

As consequências tornaram-se globais.

As instituições políticas continuam sobretudo nacionais.

As identidades humanas continuam frequentemente ainda menores.

Família, comunidade, empresa, religião, partido, classe, nação.

Nada disso é necessariamente mau. Precisamos de pertença local. O problema aparece quando a dimensão do "nós" que toma a decisão é muito menor do que a dimensão do "nós" que suporta as consequências.

Há investigação que sugere exactamente esta dificuldade. Estudos sobre cooperação em grande escala mostram que a existência simultânea de identidades e benefícios locais pode reduzir a cooperação com grupos mais amplos. A cooperação humana é extraordinária, mas tende frequentemente a ser paroquial: cooperamos intensamente com "os nossos", podendo simultaneamente competir com os restantes.

E isso permite perceber uma coisa que frequentemente esquecemos: cooperação e competição não são contrários.

Um exército é uma extraordinária máquina de cooperação criada para competir.

Uma empresa também.

Uma selecção nacional de futebol também.

Até uma nação pode desenvolver enorme solidariedade interna enquanto compete agressivamente com outras.

A pergunta política decisiva não é, portanto, se as pessoas cooperam.

É **à escala de que grupo conseguem considerar o interesse comum como seu**.

## A race condition civilizacional

É aqui que encontro uma hipótese que vale a pena explorar.

Na programação existe uma *race condition* quando vários processos actuam sobre um sistema concorrente e o resultado depende da sequência ou da velocidade das operações. Cada processo pode estar a executar correctamente a sua função e, mesmo assim, o sistema produzir um resultado indesejado.

Talvez algumas das principais crises contemporâneas tenham esta estrutura.

Imagine-se uma empresa de IA que reconhece riscos em avançar demasiado depressa. Pode querer investir mais tempo em segurança. Mas se acreditar que o concorrente não fará o mesmo, abrandar unilateralmente pode significar perder mercado, talento, capital e influência.

Agora substituamos a empresa por um país.

Nenhum governo quer limitar demasiado os seus laboratórios se acreditar que uma potência rival continuará a acelerar.

O resultado é perturbador: **cada actor pode tomar uma decisão racional do seu ponto de vista e todos juntos produzirem um resultado que nenhum deles escolheria isoladamente**.

O mesmo problema surge no clima, na pesca dos oceanos, na exploração de determinados recursos, no armamento e em partes da biotecnologia.

Não precisamos de vilões.

Precisamos apenas de incentivos mal alinhados.

Robert Axelrod mostrou, através dos seus trabalhos sobre o Dilema do Prisioneiro iterado, que a cooperação pode emergir entre actores interessados no próprio benefício quando existe reciprocidade e expectativa de interacção futura. Aquilo a que chamou a "sombra do futuro" altera o cálculo presente: se sei que voltarei a precisar de ti amanhã, explorar-te hoje torna-se mais caro. Trabalhos experimentais posteriores reforçaram a importância dessa expectativa de repetição.

Agora olhemos para a arquitectura de incentivos que construímos.

Resultados empresariais trimestrais. Eleições a cada poucos anos. Mercados financeiros que reagem em fracções de segundo. Plataformas digitais que optimizam o minuto seguinte de atenção. Ciclos mediáticos que mal sobrevivem um dia.

Ao mesmo tempo, clima, educação, demografia, sustentabilidade da segurança social, infraestrutura e governança tecnológica exigem horizontes de décadas.

Temos problemas cada vez mais longos e incentivos cada vez mais curtos.

Talvez esta seja uma das contradições centrais do nosso tempo.

## Tecnologia não distribui poder por si própria

Há outra razão para não tratar esta transformação como um problema puramente técnico.

Daron Acemoglu, Simon Johnson e James Robinson receberam o Prémio de Ciências Económicas de 2024 pelos seus estudos sobre como as instituições se formam e afectam a prosperidade. Uma parte importante do trabalho de Acemoglu e Johnson insiste numa ideia simples que a história tecnológica frequentemente nos faz esquecer: inovação e prosperidade social não são sinónimos. A tecnologia pode aumentar enormemente a produtividade sem que os benefícios sejam distribuídos de maneira igualmente ampla.

Não é a máquina que decide quem fica com a produtividade adicional.

São instituições, contratos, mercados, relações de poder, impostos, educação, propriedade e política.

Isto muda a pergunta sobre IA.

Talvez a questão mais importante não seja quantos empregos desaparecerão. Talvez seja quem possuirá as máquinas, quem controlará os modelos, quem definirá os objectivos, quem receberá os ganhos de produtividade e que capacidade terão aqueles que suportarem os custos da transição para influenciar as regras.

Se conseguirmos criar enorme riqueza com IA e simultaneamente concentrarmos grande parte dessa riqueza, poderemos ter criado uma revolução tecnológica e um problema político na mesma operação.

Peter Turchin oferece aqui uma hipótese provocadora, mas que deve ser tratada com cautela. A sua teoria estrutural-demográfica procura relacionar instabilidade política com pressões sobre a população, competição entre elites e fragilidade do Estado. É investigação séria e publicada, mas não existe consenso académico de que funcione como uma lei geral ou como um instrumento preciso de previsão histórica. O próprio modelo tem sido alvo de críticas e estudos posteriores mostram limitações na sua generalização.

Ainda assim, há uma pergunta útil escondida na teoria de Turchin: o que acontece quando uma transformação produz vencedores extraordinários, perdedores numerosos e uma percepção crescente de que o sistema deixou de distribuir oportunidades de forma legítima?

É uma pergunta que a revolução da IA não pode ignorar.

## Sem uma realidade comum não existe sequer um problema comum

Hannah Arendt percebeu uma dimensão ainda mais profunda da política. Uma comunidade política não precisa apenas de instituições. Precisa de um mundo comum onde pessoas diferentes possam aparecer umas perante as outras, falar, agir e reconhecer que, apesar de perspectivas distintas, estão a discutir a mesma realidade.

Habermas levou esta preocupação para a ideia de esfera pública: um espaço onde cidadãos conseguem confrontar argumentos sobre assuntos comuns e onde a opinião pública pode, pelo menos idealmente, ser formada através de discussão crítica.

Nenhum dos dois conheceu TikTok, microtargeting político, deepfakes ou modelos generativos capazes de produzir volumes praticamente ilimitados de texto, áudio, imagem e vídeo adaptados a públicos diferentes.

O perigo não é simplesmente existirem notícias falsas. Sempre existiram.

O perigo é a industrialização da realidade personalizada.

Se cada comunidade recebe uma descrição diferente do acontecimento, confia exclusivamente nas fontes que confirmam a sua identidade e considera qualquer evidência contrária uma manipulação, deixamos de ter apenas divergências políticas.

Passamos a ter divergências ontológicas.

Já não discutimos sobre o que fazer perante o problema.

Discutimos sobre se o problema existe.

E sem uma quantidade mínima de realidade partilhada não há cooperação possível porque nem sequer existe um objecto comum sobre o qual cooperar.

Talvez tenhamos, por isso, de começar a pensar na informação verdadeira como pensamos noutras infraestruturas essenciais. Não no sentido autoritário de criar uma verdade oficial, mas no sentido de criar mecanismos de proveniência, autenticação, auditoria independente, transparência, ciência aberta, jornalismo sustentável e capacidade de verificar de onde veio determinada afirmação, imagem ou vídeo.

A sociedade industrial precisou de saneamento para proteger a água.

A sociedade informacional poderá precisar de algo semelhante para proteger a confiança.

## Podemos usar tecnologia para produzir mais cooperação?

Há uma experiência contemporânea particularmente interessante porque inverte a arquitectura dominante das redes sociais.

Em Taiwan, processos como o vTaiwan utilizaram o software Pol.is para recolher opiniões de milhares de cidadãos e agrupar pessoas de acordo com os seus padrões de concordância. Em vez de favorecer respostas que provocavam indignação, o sistema tornava visíveis afirmações capazes de obter apoio entre grupos diferentes.

Um dos casos mais conhecidos foi a discussão sobre a regulamentação da Uber a partir de 2015. O processo ajudou a identificar zonas de consenso entre passageiros, taxistas, utilizadores da Uber, empresas e autoridades e influenciou alterações regulatórias posteriores.

Mas também aqui convém resistir à tentação de contar apenas a história bonita. Investigação posterior sobre o mesmo processo mostrou limitações importantes: nem todas as posições minoritárias identificadas pelo algoritmo chegaram com o mesmo peso à fase política e o conflito entre Uber e parte do sector do táxi não desapareceu.

Isto torna o exemplo mais interessante, não menos.

A tecnologia não resolveu a democracia.

Mostrou que **o desenho tecnológico altera o tipo de comportamento que emerge**.

Construímos durante duas décadas sistemas cujo incentivo económico principal era maximizar atenção e engagement. Depois ficámos surpreendidos quando conteúdos indignantes, polarizadores e emocionalmente intensos prosperaram dentro deles.

Talvez devamos experimentar a pergunta inversa.

E se utilizássemos a mesma capacidade computacional para descobrir compromissos, expor falsos consensos, identificar interesses partilhados, estruturar deliberação e mostrar às pessoas aquilo que os grupos adversários realmente pensam, em vez da caricatura que fazemos deles?

Durante anos perguntámos como tornar as máquinas mais inteligentes.

Talvez devêssemos começar a perguntar como utilizá-las para tornar grupos de seres humanos colectivamente mais inteligentes.

## Quatro hipóteses para o mundo que estamos a construir

Há quatro hipóteses que me parecem resultar desta investigação. Não são factos demonstrados. São interpretações e, precisamente por isso, devem poder ser contestadas.

A primeira é aquilo a que chamaria **atraso cooperativo**. Existe um intervalo entre o momento em que racionalmente percebemos um risco e o momento em que emocional e politicamente estamos dispostos a pagar o preço para o evitar. Esse intervalo é tolerável quando a mudança é lenta e reversível. Torna-se perigoso quando a tecnologia ou o sistema natural se movem mais depressa do que a resposta política.

A segunda é uma **incompatibilidade de escalas**. As consequências de algumas das nossas decisões tornaram-se planetárias, mas grande parte dos nossos mecanismos de identidade, responsabilidade e governação continua nacional ou local. Não significa que tenhamos de destruir essas identidades. Pelo contrário. Talvez precisemos de aprender a combinar pertenças locais fortes com mecanismos de cooperação em escalas muito superiores.

A terceira é que **a realidade comum se está a transformar num bem público**. Uma sociedade não consegue funcionar apenas com liberdade de expressão. Precisa também de condições que tornem possível distinguir testemunho de fabricação, evidência de manipulação e divergência legítima de falsificação deliberada.

A quarta é que podemos estar a viver uma **race condition civilizacional**. Países, empresas e indivíduos respondem racionalmente aos incentivos que encontram, mas a soma dessas decisões pode produzir uma trajectória que quase ninguém escolheria como resultado colectivo.

Nenhuma destas hipóteses implica que estejamos condenados.

Todas implicam que esperar espontaneamente pela cooperação é uma estratégia insuficiente.

## O que poderia funcionar

Ostrom aponta para instituições policêntricas, não para a fantasia de um governo mundial omnipotente. Problemas complexos podem precisar de vários centros de decisão, ligados entre si: cidades, Estados, empresas, comunidades científicas, reguladores, organizações internacionais e sociedade civil. O desafio é criar interoperabilidade entre eles sem eliminar autonomia.

Axelrod lembra-nos que temos de voltar a alongar a sombra do futuro. Se governos, empresas e mercados forem sistematicamente recompensados pela decisão que produz benefício imediato e transfere o custo para quem vem depois, não podemos ficar surpreendidos com a incapacidade de resolver problemas de longo prazo. Precisamos de instituições capazes de representar interesses futuros dentro de decisões presentes.

Ostrom e a investigação sobre cooperação sugerem ainda que qualquer transição que dependa de sacrifícios necessita de reciprocidade visível. Se os custos da descarbonização, da transformação do trabalho ou da adaptação tecnológica forem percebidos como profundamente assimétricos, a resistência não será apenas egoísmo. Será também uma reacção ao desenho do sistema.

A OCDE fornece outra pista. Sentir que se tem voz está fortemente associado à confiança. Talvez tenhamos de aumentar a largura de banda da democracia, não substituindo eleições por plebiscitos permanentes, mas criando formas muito mais contínuas de participação, deliberação e feedback.

E existe finalmente a própria tecnologia. Podemos construir IA para substituir decisão humana ou para melhorar decisão humana. Para maximizar persuasão ou para revelar manipulação. Para encontrar a mensagem que mais divide ou para encontrar a afirmação que grupos diferentes conseguem aceitar. Para concentrar conhecimento ou para o tornar acessível.

Não há uma lei tecnológica que determine qual destas trajectórias vencerá.

Há escolhas.

E poder.

## A pergunta que fica

A evidência obriga-me a abandonar duas posições confortáveis.

A primeira é a visão romântica de que, no fundo, perante grandes problemas, a humanidade acaba sempre por fazer aquilo que está certo. A história não permite essa confiança.

A segunda é a visão cínica de que cooperamos apenas quando temos medo, quando somos obrigados ou quando esperamos ganhar alguma coisa. Também não resiste à evidência.

Somos capazes de altruísmo espontâneo. Somos capazes de construir instituições extraordinariamente sofisticadas de cooperação entre desconhecidos. Conseguimos erradicar uma doença do planeta e alterar colectivamente tecnologias para permitir a recuperação da camada de ozono.

Mas somos também cooperadores condicionais, tribais e profundamente atentos à justiça do jogo.

Talvez o futuro não dependa de conseguirmos transformar a natureza humana.

Talvez dependa de compreendê-la suficientemente bem para construirmos instituições adequadas a ela.

Porque o problema dos próximos anos não será apenas termos máquinas mais inteligentes, uma economia mais rápida ou tecnologias mais poderosas.

Será termos criado sistemas com consequências maiores do que qualquer actor individual consegue controlar, numa altura em que a confiança é escassa, a realidade comum está sob pressão e os incentivos continuam a recompensar frequentemente quem chega primeiro, não quem escolhe melhor.

A história mostra que conseguimos cooperar quando percebemos que estamos no mesmo barco.

O verdadeiro desafio agora é bastante mais difícil.

**Conseguiremos perceber que estamos no mesmo barco antes de ele começar a meter água?**

## Nota sobre evidência e interpretação

Os dados quantitativos deste ensaio foram verificados em fontes primárias ou académicas, incluindo OCDE, Stanford HAI, UNEP, OMS, V-Dem, Nobel Prize Outreach e artigos científicos publicados em *Nature*, *Scientific Reports*, *Science*, *Economics Letters* e outras publicações académicas.

Nem todas as afirmações têm o mesmo estatuto epistemológico. Os números da OCDE são resultados de inquéritos. O Global Risks Report mede percepção de risco. O V-Dem produz índices construídos a partir de uma metodologia académica que admite discussão. Os incidentes de IA são incidentes documentados, não uma contagem completa de todos os incidentes existentes. Os estudos experimentais sobre cooperação mostram comportamentos em condições específicas e não autorizam, isoladamente, generalizações sobre toda a humanidade.

Os conceitos de **atraso cooperativo**, **incompatibilidade de escalas**, **realidade comum como bem público** e **race condition civilizacional**, tal como utilizados aqui, são hipóteses interpretativas do autor. São propostas para pensar o problema, não resultados científicos estabelecidos.

Esta distinção não enfraquece o ensaio.

É exactamente o contrário.

Uma hipótese só é intelectualmente interessante quando sabemos onde acabam os factos e começa a tentativa de os compreender.
