# Quando os Loucos Encontram as Máquinas

## Do Apple Lisa à inteligência artificial: como certas ferramentas mudam a forma de pensar o mundo

Em 1984 passei um fim de semana inteiro sem dormir por causa de um computador.

Não era meu. Um professor emprestou-me um Apple Lisa — uma máquina que eu nunca tinha visto. Não porque alguém mo tivesse pedido. Não porque houvesse uma nota a ganhar. Mas porque havia ali qualquer coisa que eu precisava de perceber até ao fundo.

Já tinha visto ratos e interfaces gráficas. Mas ver é uma coisa. Usar é outra. Explorar durante um fim de semana inteiro, sem pressa, sem ninguém a olhar, é completamente diferente. Janelas, ícones, um ecrã que não era apenas linhas de texto verde sobre fundo preto. O computador deixava de ser uma máquina de escrever com pretensões.

Tornava-se um espaço. Quase um lugar.

Nessa noite percebi que havia um mundo novo a ser construído — e que eu queria estar dentro dele.

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Cresci na periferia dessa revolução. Escola Emídio Navarro, em Almada, numa das duas únicas escolas da região que tinham o curso de eletrónica. O núcleo de informática que fundei era um clube informal de alunos que simplesmente não conseguiam ir para casa depois das aulas.

Não havia internet. Os livros técnicos eram caros e raros. A documentação circulava em fotocópias de fotocópias. Aprender era sinónimo de partir pedra: errar, desmontar, montar outra vez, errar melhor.

Não havia atalhos. Havia tempo, obsessão e a convicção irracional de que valia a pena.

No ano seguinte comecei a colaborar com o centro coordenador do Projeto Minerva na FCT/UNL, que coordenava os centros informáticos da região de Setúbal. Foi aí que tive acesso aos Macintosh e, algum tempo depois, a algo ainda mais extraordinário: um NeXT Computer, a máquina que Steve Jobs construiu depois de sair da Apple.

Voltei a passar noites inteiras acordado.

A sensação era a mesma: qualquer coisa que ainda não existia estava ali, em embrião, à espera que alguém percebesse o que fazer com ela.

Não era nostalgia.

Era fome.

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Este mês a Apple celebra 50 anos.

É um número que convida à reflexão — não pela empresa em si, mas pelo que ela representou numa geração de pessoas que olhavam para a tecnologia de uma forma diferente.

A Apple não inventou o computador pessoal. Inventou algo talvez mais importante: a ideia de que o computador pessoal podia ser belo, intuitivo e humano. Que a tecnologia não era território exclusivo de técnicos e engenheiros, mas um instrumento de criatividade ao alcance de qualquer pessoa com imaginação suficiente para a usar.

O manifesto que ficou associado a essa visão — *Here's to the Crazy Ones* — foi muitas vezes reduzido a um slogan publicitário. Mas por baixo da polémica de marketing havia uma observação genuína: as ferramentas mais interessantes da história foram construídas por pessoas que recusaram aceitar o mundo como ele era.

O Apple Lisa que me manteve acordado um fim de semana inteiro era isso.

Não era apenas hardware.

Era uma declaração de que o futuro podia ser diferente do presente. E havia pessoas, em garagens, laboratórios e quartos de adolescentes, dispostas a perder o sono para descobrir como.

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Quarenta anos depois voltei a ter essa sensação.

Estava a trabalhar num projeto complexo de transformação digital. Pedi ajuda a uma ferramenta de inteligência artificial. Não como assistente de pesquisa. Não para formatar um e-mail.

Pedi-lhe para pensar comigo.

Para arquitetar soluções. Para questionar decisões. Para ver os buracos que eu não estava a ver.

E ela viu.

Não foi magia. Foi algo mais perturbador do que magia: foi competência.

Uma competência que não precisou de anos de escola, de noites sem dormir, de fotocópias de fotocópias. Estava simplesmente ali. Disponível. Paciente. Incansável.

Fiquei quieto durante um momento.

Não de admiração ingénua — dessa já passei há muito. Fiquei quieto porque percebi que algo tinha mudado de categoria.

Já não estamos a falar de ferramentas que fazem coisas por nós.

Estamos a falar de ferramentas que pensam **connosco**.

E a diferença entre estas duas frases é um abismo.

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Hoje trabalho com equipas na modelação de processos e transformação digital — organizações que estão a tentar perceber como mudar a forma como operam, como decidem, como crescem.

Não é trabalho solitário. É trabalho coletivo, com pessoas de várias áreas, muitas delas céticas por profissão e por experiência acumulada.

Há um momento em cada processo que eu reconheço — e que aprendi a esperar.

É o momento em que alguém deixa de resistir.

Os ombros descem um pouco. A expressão muda subtilmente. Não é euforia. É algo mais silencioso: a perceção de que aquilo que fizeram à mão durante anos pode ser feito de outra forma.

Que o problema que exigia três dias de trabalho pode ser reformulado em três horas.

Que há espaço, finalmente, para pensar naquilo que realmente importa, em vez de se perder no ruído do operacional.

Não é o entusiasmo dos anos 80 perante um ecrã gráfico pela primeira vez.

É algo mais grave. Mais adulto.

E por isso mais verdadeiro.

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Tenho pensado muito no que separa quem vai conseguir usar bem estas ferramentas de quem não vai.

Não é inteligência. Não é formação técnica. Nem sequer familiaridade com tecnologia.

É uma disposição interior.

A capacidade de olhar para uma ferramenta poderosa e não perguntar “o que é que ela faz?”, mas sim:

**“O que é que eu consigo fazer com ela que antes era impossível?”**

Em 1984 havia rapazes que olhavam para um ZX Spectrum e viam uma curiosidade cara ou uma máquina de jogos.

E havia outros que olhavam para o mesmo objeto e viam um universo por explorar.

A diferença não estava na máquina.

Estava em quem a segurava.

A Apple percebeu isso antes de quase toda a gente. Construiu cinquenta anos de produtos em torno dessa intuição: a tecnologia não serve para impressionar. Serve para ampliar aquilo que as pessoas conseguem fazer.

*Tools for the rest of us*, diziam os anúncios dos anos 80.

Ferramentas para os outros. Para quem não era engenheiro nem programador, mas tinha algo para criar.

Hoje a distribuição continua a mesma.

As ferramentas são incomparavelmente mais poderosas.

Mas a pergunta que as faz funcionar continua a ser a mesma pergunta antiga, feita por pessoas que nunca aprenderam a ficar satisfeitas com o que já existe.

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Há riscos reais. As perguntas éticas são sérias e merecem respostas sérias.

O entusiasmo ingénuo pode ser tão perigoso quanto o conservadorismo paralisante.

Mas eu sei o que senti naquele fim de semana de 1984.

E sei o que voltei a sentir há pouco tempo, diante de uma conversa com uma máquina que me devolveu uma pergunta que eu não esperava.

A sensação é a mesma.

A escala é diferente.

Há cinquenta anos uma empresa decidiu construir computadores para os loucos, os inadaptados, os que veem as coisas de forma diferente.

Não foi altruísmo.

Foi uma aposta.

A aposta de que essas pessoas, quando encontram a ferramenta certa, fazem coisas que ninguém ainda imaginou.

Essa aposta foi ganha.

A próxima revolução está a começar.

E os que souberem reconhecer esta sensação — e tiverem coragem de a seguir — vão ajudar a construir o que vem a seguir.

Os outros vão ler sobre isso nos jornais.