# E se Trump não estiver louco?

### O poder mundial está a mudar. A verdadeira questão não é compreender Donald Trump: é perceber se a Europa ainda tem tempo para se adaptar.

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Há uma frase do major-general Arnaut Moreira que merece ser levada a sério, mesmo por quem discorda profundamente de Donald Trump: "Trump não é a origem do caos. Trump é a consequência de uma alteração de poderes no sistema internacional." É uma afirmação provocadora, talvez excessiva na formulação, mas contém uma pergunta que a Europa tem sistematicamente evitado fazer. E se aquilo que interpretamos como uma perturbação temporária da ordem internacional for, na realidade, a manifestação de uma transformação muito mais profunda dessa mesma ordem?

Este texto nasceu depois de ouvir o podcast "O Domínio da Guerra", do Observador, num episódio em que o major-general Arnaut Moreira conversa com Maria João Simões. Foi essa conversa que me desafiou a olhar para os números e a estruturar as ideias que se seguem.

Durante décadas, habituámo-nos a pensar que o mundo construído depois da Segunda Guerra Mundial, e consolidado com o fim da União Soviética, representava uma espécie de destino histórico. Os Estados Unidos garantiam grande parte da segurança do Ocidente. A Europa aprofundava o seu Estado social. A globalização integrava progressivamente as economias. A China produzia barato para consumidores ocidentais, a Rússia fornecia energia, o comércio crescia e a tecnologia aproximava sociedades. Para a Europa, foi uma combinação extraordinariamente favorável. Mas não era uma lei da natureza: era uma circunstância histórica. E essa circunstância está a desaparecer.

A pergunta talvez já não seja, portanto, se Trump está a destruir a velha ordem. É saber se essa velha ordem já estava a desaparecer antes de Trump, e se ele, de forma instintiva, brutal e frequentemente errática, percebeu uma mudança que uma parte considerável da Europa continua a recusar aceitar. Este documento procura responder a essa pergunta com dados, e não com adjetivos. A tese central pode resumir-se em três proposições encadeadas: primeiro, a redistribuição do poder económico mundial é um facto mensurável e anterior a Trump; segundo, Trump é melhor compreendido como sintoma e acelerador dessa redistribuição do que como a sua causa; terceiro, a Europa enfrenta uma janela temporal finita para converter a riqueza que ainda possui em poder estratégico, e essa janela está a fechar-se ao ritmo da sua própria demografia.

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## I. O mundo que criou o G7 já não existe

Quando, em 1975, os líderes das principais democracias industriais começaram a reunir-se no formato que viria a originar o G7, o grupo representava muito mais do que uma reunião de sete economias desenvolvidas. Estados Unidos, Japão, Alemanha, França, Reino Unido, Itália e Canadá encontravam-se no centro de um sistema mundial cuja tecnologia, capital, indústria, instituições financeiras e poder militar estavam largamente concentrados no Ocidente. O dólar dominava o sistema monetário internacional. As principais empresas tecnológicas e industriais pertenciam às economias avançadas. Os grandes centros financeiros situavam-se em Nova Iorque, Londres, Frankfurt ou Tóquio. A China ainda não era uma grande potência económica, a Índia permanecia uma economia pobre, e a Indonésia, o Brasil, o México e a Turquia estavam longe da escala que viriam a alcançar.

O mundo mudou profundamente em apenas uma geração. Uma forma rigorosa de observar essa transformação é comparar o G7 com o chamado E7: China, Índia, Indonésia, Brasil, Rússia, México e Turquia. Antes de avançar, é indispensável fazer uma distinção metodológica. O E7 não é uma organização, não é uma aliança, não tem instituições comuns nem uma estratégia política coordenada. China e Índia são simultaneamente parceiros e rivais. Rússia e Turquia cooperam em alguns domínios e competem noutros. Brasil, México e Indonésia possuem interesses internacionais muito diferentes entre si. O E7 é, portanto, um instrumento de análise económica, não um ator geopolítico. Mas, como instrumento, é extraordinariamente útil, porque mostra com clareza para onde está a deslocar-se a produção mundial.

Os números do estudo de longo prazo da PwC, "The World in 2050", publicado em 2017, contam a história em três momentos.

**Tabela 1. Dimensão económica do E7 face ao G7 (PIB agregado em paridade de poder de compra)**

| Ano | E7 em % do G7 | Contexto histórico |
|---|---|---|
| 1991 | ~35% | Fim da Guerra Fria; auge da confiança no modelo ocidental |
| 2016 | ~103% (ultrapassagem consumada) | A China já é a maior economia mundial em PPC |
| 2040 (projeção) | ~200% | O E7 atingiria aproximadamente o dobro do G7 |

*Fonte: PwC, The World in 2050 (2017). Ver Gráfico 1 e notas metodológicas.*

![Gráfico 1. E7 face ao G7 em paridade de poder de compra](/images/graficos/europa-tem-que-reagir/grafico1-e7-g7.png)

*Gráfico 1. E7 face ao G7 em paridade de poder de compra.*

Em 1991, as sete economias do E7 representavam apenas cerca de 35% da dimensão económica do G7, medida em paridade de poder de compra. Vinte e cinco anos depois, já tinham ultrapassado o G7 nessa métrica. A mesma projeção estimava que, mantendo-se as tendências de crescimento, o E7 poderia atingir aproximadamente o dobro da dimensão económica do G7 por volta de 2040 em paridade de poder de compra. A taxas de câmbio de mercado, uma medida muito mais exigente para as economias emergentes, a ultrapassagem seria mais lenta, mas a PwC projetava ainda assim um E7 significativamente maior do que o G7 em 2050.

Estas projeções exigem duas cautelas. A primeira: não devemos transformá-las numa profecia. Foram produzidas em 2017, e desde então houve uma pandemia, guerras, inflação, fragmentação comercial, desaceleração chinesa, mudanças tecnológicas e uma transformação profunda das relações internacionais. Uma projeção para 2050 não é um facto sobre 2050. A segunda cautela é simétrica: a tendência que deu origem às projeções não desapareceu. Os dados mais recentes do FMI mostram que as economias emergentes e em desenvolvimento representam já cerca de 60% da produção mundial medida em paridade de poder de compra, contra cerca de 40% das economias avançadas. O cruzamento das duas curvas ocorreu por volta de 2007-2008, muito antes de Donald Trump entrar na política. O mundo já mudou.

![Gráfico 2. Quota da produção mundial em paridade de poder de compra](/images/graficos/europa-tem-que-reagir/grafico2-quota-mundial.png)

*Gráfico 2. Quota da produção mundial em paridade de poder de compra.*

Para dar corpo concreto a este movimento, vale a pena registar o que a mesma projeção da PwC antecipava para o ranking das maiores economias em 2050, em paridade de poder de compra: a China em primeiro lugar, a Índia em segundo, os Estados Unidos em terceiro, a Indonésia em quarto. A primeira economia da União Europeia, a Alemanha, surgiria em nono lugar. A Itália, membro fundador do G7, cairia para fora dos vinte primeiros. Podemos, e devemos, discutir cada número. Mas a direção do movimento é inequívoca e converge com todas as restantes fontes disponíveis.

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## II. Há duas formas de medir poder económico, e ambas contam a mesma história

A discussão entre G7 e E7 exige uma cautela metodológica fundamental, frequentemente ignorada no debate público: não podemos utilizar PIB nominal e PIB em paridade de poder de compra como se fossem a mesma coisa. Não são, e a diferença tem consequências analíticas relevantes.

O PIB nominal, convertido às taxas de câmbio de mercado, mede a capacidade financeira internacional de uma economia. É particularmente relevante para comprar tecnologia, empresas, recursos e equipamentos produzidos fora do país, para pesar nos mercados financeiros globais e para financiar despesa externa, incluindo militar. A paridade de poder de compra, por seu lado, corrige diferenças de preços entre países e procura medir a quantidade real de bens e serviços que uma economia consegue produzir internamente. Uma economia pode parecer muito maior em PPC simplesmente porque os salários, as casas e os serviços domésticos são significativamente mais baratos. É por isso que a ultrapassagem do G7 pelo E7 aconteceu muito mais cedo em PPC do que em dólares correntes.

**Tabela 2. As duas métricas e aquilo que cada uma mede**

| Métrica | O que mede melhor | Relevância estratégica | Situação E7 vs G7 |
|---|---|---|---|
| PIB a taxas de câmbio de mercado | Poder de compra internacional, peso financeiro global | Aquisição de tecnologia e ativos externos, sanções, financiamento de alianças | G7 ainda à frente; convergência projetada até 2050 |
| PIB em paridade de poder de compra | Capacidade produtiva real interna | Base industrial, mobilização de recursos, sustentação de esforço militar prolongado | E7 ultrapassou o G7 por volta de 2016 |

As duas métricas contam partes diferentes da mesma história, e ambas apontam numa direção semelhante. A enorme concentração de poder económico que caracterizou o Ocidente durante grande parte do século XX terminou. Isso não significa que outro bloco tenha ocupado automaticamente o seu lugar. Significa que entrámos num sistema de poder muito mais distribuído, no qual a capacidade produtiva real, aquela que a PPC mede melhor, se deslocou de forma decisiva para fora do núcleo histórico das economias avançadas. Quem tiver dúvidas sobre a relevância estratégica desta distinção pode observar a guerra na Ucrânia: a capacidade de produzir munições, drones e aço em quantidade revelou-se, em contexto de conflito prolongado, mais determinante do que o valor nominal dos PIB envolvidos.

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## III. A grande mudança não é o empobrecimento do Ocidente

É importante perceber com precisão aquilo que está a acontecer, porque o erro de diagnóstico mais comum consiste em confundir perda de poder relativo com empobrecimento absoluto. O Ocidente não está necessariamente a ficar mais pobre. Os Estados Unidos podem continuar a crescer. A Europa pode continuar a crescer. Os cidadãos europeus podem viver melhor em 2050 do que vivem atualmente. E, ainda assim, o Ocidente pode perder uma parte muito significativa do seu poder relativo. Não existe qualquer contradição.

O mecanismo é aritmético. Imagine-se uma economia europeia que cresce 30% ao longo de determinado período, enquanto a economia mundial cresce 100%. A Europa ficou mais rica em termos absolutos, mas passou a representar uma parcela substancialmente menor da economia mundial. E poder não é apenas riqueza absoluta: é também, e sobretudo, escala relativa. É capacidade para financiar investigação, atrair talento, controlar tecnologias, projetar força, definir padrões, impor sanções, financiar alianças, proteger rotas comerciais e construir infraestruturas. Em todas estas dimensões, o que conta não é quanto se tem, mas quanto se tem em comparação com os outros.

O problema central da Europa talvez não seja, portanto, o declínio no sentido clássico da palavra. É algo mais subtil e, por isso, mais perigoso: **a Europa está a perder escala relativa num mundo em que a escala voltou a importar.** Durante décadas, esta perda podia parecer pouco relevante. Uma Europa protegida militarmente pelos Estados Unidos, abastecida por energia relativamente barata, integrada numa economia mundial aberta e capaz de importar tecnologia produzida noutros lugares podia continuar extraordinariamente próspera sem controlar nenhum dos fatores que sustentavam essa prosperidade. Mas esse modelo dependia de condições externas que já não são garantidas. A energia russa barata desapareceu com a invasão da Ucrânia. A abertura comercial global fragmenta-se em blocos. E a garantia de segurança americana tornou-se, pela primeira vez em setenta anos, objeto de negociação explícita.

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## IV. É aqui que aparece Trump

Talvez devamos, então, olhar novamente para Donald Trump. Não para o transformar num génio estratégico, não para justificar todas as suas decisões, não para interpretar cada declaração contraditória como parte de um plano secreto. Mas para colocar uma pergunta intelectualmente mais desconfortável: e se parte do diagnóstico estiver correta?

Trump olha para a economia mundial e vê dependência. Vê cadeias de produção essenciais concentradas fora dos Estados Unidos. Vê semicondutores avançados produzidos maioritariamente na Ásia: a Taiwan Semiconductor Manufacturing Company fabrica, sozinha, cerca de 90% dos chips mais avançados do mundo, e a máquina de litografia de ultravioleta extremo indispensável para os produzir é fabricada por uma única empresa, a neerlandesa ASML. Vê dependência de minerais críticos, cujo refinamento está esmagadoramente concentrado na China. Vê indústrias estratégicas que foram deslocadas para países concorrentes ao longo de três décadas de otimização de custos. Vê aliados europeus ricos que durante décadas investiram significativamente menos na defesa do que os Estados Unidos. Vê a China utilizar política industrial, tecnologia, energia e comércio como instrumentos deliberados de poder nacional.

A conclusão de Trump é simples, talvez demasiado simples: um país que não controla aquilo de que depende deixa progressivamente de controlar o seu próprio destino. Podemos discordar frontalmente das soluções. Podemos considerar as tarifas indiscriminadas economicamente destrutivas, e a evidência económica sustenta largamente essa crítica. Podemos considerar profundamente contraproducente hostilizar aliados. Podemos rejeitar a ideia de transformar todas as relações internacionais numa negociação transacional. Podemos considerar que a imprevisibilidade destrói a confiança, que é o ativo mais valioso de qualquer sistema de alianças. Tudo isso pode ser verdade. E também pode ser verdade que o problema que Trump identifica seja real.

O dado mais revelador é que as transformações estratégicas americanas já ultrapassam a pessoa de Donald Trump, e várias delas antecedem o seu regresso ao poder. O CHIPS and Science Act, que mobilizou dezenas de milhares de milhões de dólares para repatriar a produção de semicondutores, foi aprovado em 2022, durante a administração Biden, com apoio bipartidário. Os controlos de exportação de tecnologia avançada para a China, de outubro de 2022, também. O Inflation Reduction Act, o maior programa de política industrial americana em décadas, idem. A competição tecnológica com a China tornou-se estrutural. As cadeias de abastecimento passaram a ser tratadas como questões de segurança nacional. A reindustrialização regressou ao centro da política económica. A inteligência artificial é tratada como infraestrutura essencial de poder. E a pressão sobre os europeus para assumirem mais responsabilidades na própria defesa atravessa, com intensidades diferentes, as administrações Obama, Trump I, Biden e Trump II. Trump acelera, radicaliza e dramatiza estas tendências. Não as inventou.

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## V. Talvez Trump esteja a fazer a pergunta certa da pior maneira possível

Esta talvez seja a forma mais rigorosa de avaliar o fenómeno: Trump pode estar errado nas respostas e simultaneamente certo em algumas das perguntas. E as perguntas são estas. Porque deve uma potência aceitar uma dependência estratégica de um potencial adversário? Porque deve permitir que setores industriais essenciais desapareçam, se podem revelar-se indispensáveis numa crise? Porque deve separar política económica de segurança nacional, quando os seus concorrentes não fazem essa separação? Porque deve um contribuinte americano financiar indefinidamente uma parcela desproporcionada da defesa de aliados economicamente desenvolvidos? Porque deve considerar que semicondutores, inteligência artificial, energia, espaço e minerais críticos são apenas mercados, e não componentes de poder?

Estas perguntas não desaparecerão quando Trump desaparecer da política. E talvez essa seja uma das conclusões mais importantes de toda esta discussão: a Europa tem passado uma década a responder ao mensageiro, quando o que exige resposta é a mensagem. Um continente que organize toda a sua estratégia em torno da premissa "esperar que passe" está, na prática, a apostar o seu futuro na política interna de outro país. Não é uma estratégia. É uma abdicação.

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## VI. A Europa acreditou que tinha saído da História

O grande projeto europeu nasceu precisamente da tentativa de superar a lógica tradicional do poder. Depois de duas guerras mundiais, a Europa procurou substituir rivalidade por integração, fronteiras económicas por mercado comum, nacionalismo por instituições, confronto por negociação, força por direito. Foi uma das maiores conquistas políticas da História contemporânea, e nada neste documento pretende diminuí-la. O erro não foi fazer isso. O erro foi talvez acreditar que aquilo que funcionava dentro da Europa passaria inevitavelmente a funcionar em todo o mundo.

Não aconteceu. A Rússia continuou a pensar em termos de território e profundidade estratégica, como a invasão da Ucrânia demonstrou de forma brutal. A China nunca abandonou a centralidade da capacidade industrial, que hoje representa cerca de 30% da produção manufatureira mundial. Os Estados Unidos nunca deixaram verdadeiramente de pensar em supremacia tecnológica e militar. A Índia regressou progressivamente ao estatuto de grande potência. A Turquia desenvolveu uma política de influência regional assertiva. A Europa, entretanto, tornou-se extraordinariamente competente a regular um mundo que progressivamente deixou de controlar.

É uma frase dura, mas os dados sustentam-na. A Europa regulamenta a inteligência artificial, através do AI Act pioneiro a nível mundial; as empresas mais poderosas de inteligência artificial são principalmente americanas. A Europa regulamenta plataformas digitais, através do Digital Services Act e do Digital Markets Act; as maiores plataformas são sobretudo americanas. A Europa discute soberania digital; mais de dois terços do seu mercado de cloud está nas mãos de três empresas americanas, Amazon, Microsoft e Google. A Europa possui investigação científica extraordinária; mas o relatório Draghi documenta que apenas quatro das cinquenta maiores empresas tecnológicas do mundo são europeias, e que nenhuma empresa da União Europeia com capitalização superior a 100 mil milhões de euros foi criada de raiz nas últimas cinco décadas, enquanto todas as seis empresas americanas que valem mais de um bilião de dólares nasceram nesse período.

**Tabela 3. O paradoxo regulatório europeu: regular sem produzir**

| Domínio | Instrumento regulatório europeu | Realidade produtiva |
|---|---|---|
| Inteligência artificial | AI Act (2024) | Modelos de fronteira dominados por empresas americanas; investimento privado em IA nos EUA várias vezes superior ao europeu |
| Plataformas digitais | DSA / DMA | Nenhuma das grandes plataformas globais é europeia |
| Cloud | Iniciativas de "cloud soberana", GAIA-X | ~70% do mercado europeu controlado por AWS, Azure e Google Cloud |
| Semicondutores | European Chips Act | Quota europeia da produção mundial ~10%; nós avançados concentrados em Taiwan e Coreia do Sul; exceção crítica: ASML na litografia |
| Dados pessoais | RGPD | Padrão global de referência, mas sem gigantes europeus de dados que dele beneficiem comercialmente |

O problema não é a regulação em si. Uma sociedade precisa de regras, e algumas regras europeias tornaram-se referências mundiais. O problema surge quando a capacidade de regular substitui a capacidade de produzir, quando a Europa exporta normas e importa tecnologia, e quando o poder normativo se transforma no único poder que resta.

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## VII. Depois aparece a demografia

Talvez nenhum fator determine tanto o futuro europeu, e receba tão pouca atenção política quotidiana, como a demografia. Os números do Eurostat são de uma clareza desconfortável.

Em 2005, a idade mediana da população da União Europeia era de 39,6 anos. Em 2025, atingia 44,9 anos. Em apenas vinte anos, a idade mediana europeia aumentou mais de cinco anos, uma velocidade de envelhecimento sem precedente histórico em tempo de paz. Nesse mesmo ano, a União Europeia contava perto de cem milhões de pessoas com 65 ou mais anos, mais de um quinto da população total.

Mas o número mais importante não é a idade mediana. É a relação entre a população idosa e a população em idade ativa, porque é essa relação que determina quantos trabalhadores sustentam cada pensionista. Em 2004, utilizando a faixa dos 20 aos 64 anos, existiam quase quatro pessoas em idade ativa por cada pessoa idosa na União Europeia. Em 2024, já eram menos de três. Utilizando a definição estatística convencional, dos 15 aos 64 anos, o rácio de dependência dos idosos encontrava-se em 34,5% no início de 2025, e as projeções demográficas do Eurostat apontam para valores na ordem dos 50% ou superiores em meados do século. Dito de outra forma: caminhamos de um sistema com quase quatro ativos por idoso para um sistema com aproximadamente dois.

![Gráfico 3. A equação demográfica europeia](/images/graficos/europa-tem-que-reagir/grafico3-demografia.png)

*Gráfico 3. A equação demográfica europeia.*

**Tabela 4. Séries demográficas fundamentais da União Europeia**

| Indicador | 2005 | 2015 | 2025 | ~2050 (projeção) |
|---|---|---|---|---|
| Idade mediana (anos) | 39,6 | 42,4 | 44,9 | ~48-50 |
| Rácio de dependência dos idosos (65+ / 15-64) | ~25% | ~29% | 34,5% | ~50-57% |
| Pessoas em idade ativa por cada idoso (20-64) | ~3,9 (2004) | ~3,4 | <3 (2024) | ~2 |

*Fonte: Eurostat, estrutura demográfica e envelhecimento da população; projeções EUROPOP. Valores de projeção indicativos.*

A implicação é gigantesca. Uma população ativa proporcionalmente menor terá de financiar, simultaneamente, pensões, saúde, cuidados continuados, educação, infraestruturas, transição energética, serviço da dívida pública, investimento tecnológico e, agora, também uma despesa muito superior em defesa. É provavelmente aqui que encontramos a verdadeira equação do futuro europeu, e vale a pena formulá-la com precisão: **como financiar o Estado social do século XX, a defesa necessária no século XXI e a revolução tecnológica do século XXI com uma população proporcionalmente mais velha?**

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## VIII. O triângulo europeu: três exigências simultâneas

A Europa enfrenta três exigências que, isoladamente, seriam cada uma delas um desafio geracional, e que se apresentam ao mesmo tempo.

A primeira é preservar o Estado social. O envelhecimento aumenta mecanicamente a pressão sobre pensões, saúde e cuidados continuados, e fá-lo precisamente quando a base contributiva encolhe em termos relativos. A segunda é recuperar capacidade estratégica: defesa, energia, infraestruturas críticas, matérias-primas e segurança, domínios que a Europa subcontratou, explícita ou implicitamente, durante décadas. A terceira é financiar a próxima revolução tecnológica: inteligência artificial, semicondutores, computação, robótica, biotecnologia e novas formas de energia, os setores que determinarão a hierarquia económica das próximas décadas.

Qualquer um destes desafios exigiria enormes recursos. Os três em simultâneo obrigam a uma transformação profunda da economia europeia, porque a alternativa, aumentar indefinidamente a despesa em todas as áreas mantendo o mesmo crescimento, a mesma produtividade e a mesma organização económica, é aritmeticamente impossível. A matemática acabará por se impor, com ou sem decisão política. A única escolha real é entre uma adaptação deliberada e uma adaptação forçada.

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## IX. O relatório Draghi é um aviso, não um programa de prosperidade

Quando Mario Draghi apresentou, em setembro de 2024, o seu relatório sobre a competitividade europeia, o diagnóstico foi extraordinariamente claro e convergente com tudo o que fica dito acima. A Europa enfrenta um problema de produtividade: o fosso do PIB per capita face aos Estados Unidos alargou-se para cerca de 30%, e a quase totalidade dessa diferença explica-se por produtividade, não por horas trabalhadas. Um problema de investimento. Um problema de escala. Um problema de energia: as empresas europeias pagam a eletricidade duas a três vezes mais cara do que as americanas, e o gás natural quatro a cinco vezes mais caro. Um problema tecnológico. E um problema de dependência estratégica em praticamente todas as cadeias de valor críticas.

O relatório estimou necessidades adicionais de investimento na ordem dos 750 a 800 mil milhões de euros por ano, aproximadamente 4,5% do PIB da União Europeia, para colocar a economia europeia numa trajetória compatível com os desafios tecnológicos, energéticos e estratégicos que enfrenta. É um número difícil de imaginar, e por isso convém dar-lhe escala histórica: o Plano Marshall, a referência canónica do grande esforço de reconstrução, representou entre 1% e 2% do PIB dos países beneficiários. O que Draghi propõe é um esforço relativo duas a três vezes superior ao Plano Marshall. E não se trata de 800 mil milhões uma vez: trata-se de uma ordem de grandeza anual, sustentada ao longo de uma década ou mais.

![Gráfico 5. A escala do esforço de investimento](/images/graficos/europa-tem-que-reagir/grafico5-investimento.png)

*Gráfico 5. A escala do esforço de investimento.*

Mas o verdadeiro problema europeu talvez não seja sequer a falta de dinheiro. A Europa possui enorme riqueza e uma das taxas de poupança mais elevadas do mundo: as famílias europeias poupam anualmente cerca de 1,4 biliões de euros, e o relatório Letta estimou que cerca de 300 mil milhões de euros de poupança europeia são canalizados todos os anos para fora da União, sobretudo para os mercados americanos, onde encontram profundidade, liquidez e retorno que os mercados europeus não oferecem. O problema é a dificuldade em transformar esse capital em investimento produtivo à escala continental.

A razão dessa dificuldade tem nome: fragmentação. A União tem 27 mercados de capitais ainda insuficientemente integrados, 27 sistemas fiscais, 27 prioridades industriais, 27 governos a proteger campeões nacionais e 27 sistemas de contratação militar. E depois admiramo-nos por empresas americanas, que nascem num mercado doméstico de dimensão continental e num sistema financeiro profundamente integrado, atingirem escala mais rapidamente do que as europeias. A conclusão é incómoda mas inescapável: a Europa possui escala, mas utiliza-a mal.

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## X. Uma potência de 450 milhões que se comporta como 27 países médios

Este talvez seja o paradoxo europeu fundamental. Individualmente, nenhum dos principais países europeus possui a escala dos Estados Unidos ou da China, e no futuro também não terá a escala da Índia. A Alemanha, a França, a Itália, a Espanha e a Polónia continuarão a ser países relevantes, mas nenhum conseguirá, isoladamente, financiar de forma competitiva todas as infraestruturas necessárias para liderar em simultâneo inteligência artificial, espaço, defesa, energia, semicondutores, computação avançada e biotecnologia. Nenhuma economia de 50 ou 80 milhões de habitantes consegue sustentar sozinha esse portefólio de ambições num mundo onde os concorrentes têm 330 milhões, 1.400 milhões e mercados de capitais unificados.

Coletivamente, a Europa tem escala: 450 milhões de habitantes, o segundo maior mercado consumidor do mundo, uma base científica de primeira linha. Individualmente, está condenada a perdê-la. A questão do futuro europeu talvez se reduza, portanto, a uma pergunta simples: conseguirá a Europa transformar dimensão económica em poder político e estratégico antes de a perda relativa de peso tornar essa transformação muito mais difícil? Porque há aqui uma dinâmica temporal cruel: cada ano de fragmentação reduz o peso relativo europeu, e cada redução de peso relativo diminui a capacidade de negociar, atrair e financiar a própria integração. A janela não é infinita.

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## XI. E agora temos de pagar pela defesa

Durante décadas, grande parte da Europa viveu uma situação historicamente excecional: construiu alguns dos sistemas sociais mais generosos do mundo sem assumir integralmente o custo estratégico da sua própria proteção. Os Estados Unidos suportaram uma parcela muito significativa da capacidade militar da NATO, ainda hoje na ordem de dois terços da despesa total da Aliança. A Europa beneficiou e pôde investir noutras prioridades. Foi, em termos financeiros, o maior subsídio estratégico da história moderna. Esse período terminou.

Na cimeira da NATO realizada na Haia, em junho de 2025, os aliados assumiram o compromisso de caminhar até 2035 para um investimento equivalente a 5% do PIB em defesa e segurança, decomposto em pelo menos 3,5% para necessidades militares centrais e até 1,5% para áreas relacionadas com resiliência, infraestruturas críticas, inovação e capacidade industrial de defesa. Para medir a dimensão da transformação, recorde-se o ponto de partida: em 2014, quando a cimeira de Gales fixou a meta de 2%, os aliados europeus gastavam em média cerca de 1,5% do PIB; em 2024, rondavam finalmente os 2%.

![Gráfico 4. Da proteção subsidiada ao rearmamento](/images/graficos/europa-tem-que-reagir/grafico4-defesa.png)

*Gráfico 4. Da proteção subsidiada ao rearmamento.*

A aritmética é implacável. Uma economia que passe de gastar 1,5% para 3,5% do PIB em defesa transfere anualmente mais dois pontos percentuais da sua produção para essa finalidade. Numa economia de um bilião de euros, sensivelmente a escala da economia espanhola ou neerlandesa, isso representa 20 mil milhões de euros adicionais. Não uma vez: todos os anos. À escala da União Europeia, com um PIB na ordem dos 17 a 18 biliões de euros, cada ponto percentual adicional de despesa em defesa representa cerca de 170 a 180 mil milhões de euros anuais. A defesa regressou, portanto, à grande disputa europeia pelos recursos, e regressa precisamente no momento em que aumentam as necessidades com o envelhecimento, a tecnologia, a energia e a transição industrial. O triângulo descrito na secção VIII não é uma metáfora: é uma restrição orçamental.

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## XII. Gastar mais não significa necessariamente ter mais poder

Aqui reside um dos riscos mais importantes, e menos discutidos, do rearmamento europeu: a Europa pode aumentar brutalmente a sua despesa militar e continuar estrategicamente dependente. Os dados recentes são um aviso. Segundo o relatório Draghi, entre meados de 2022 e meados de 2023, 78% da despesa europeia em aquisições de defesa foi feita fora da União Europeia, e 63% junto de fornecedores americanos. Se a Europa comprar essencialmente equipamentos produzidos nos Estados Unidos, terá mais capacidade militar imediata, mas reforçará a dependência tecnológica que o rearmamento supostamente deveria reduzir.

A fragmentação agrava o problema. Se 27 países continuarem a comprar sistemas diferentes, mantém-se a atual duplicação absurda: as forças armadas europeias operam cerca de uma dúzia de modelos diferentes de carros de combate, enquanto os Estados Unidos operam essencialmente um. Multiplicam-se linhas logísticas, custos de manutenção, programas de treino e incompatibilidades operacionais. E se cada governo utilizar os novos orçamentos de defesa sobretudo para proteger os seus campeões nacionais, desperdiçar-se-á a oportunidade de construir empresas europeias de defesa com escala global.

A pergunta certa não é, portanto, apenas "quanto vamos gastar?". É: **que poder queremos construir com o dinheiro que vamos gastar?** Porque a defesa pode ser muito mais do que despesa militar. Pode ser política industrial, investigação, inteligência artificial, robótica, drones, satélites, espaço, cibersegurança, novos materiais, energia, comunicações e computação avançada. A história americana recente é instrutiva: grande parte da revolução tecnológica dos Estados Unidos das últimas décadas, da internet ao GPS, dos semicondutores à inteligência artificial, beneficiou direta ou indiretamente do investimento estratégico do Estado, frequentemente através do orçamento de defesa e de agências como a DARPA. A Europa está perante uma bifurcação: pode utilizar o rearmamento para reconstruir capacidade industrial e tecnológica própria, ou pode simplesmente tornar-se o maior cliente externo da indústria militar americana. As consequências económicas e estratégicas destas duas escolhas são radicalmente diferentes, e a decisão está a ser tomada agora, contrato a contrato.

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## XIII. A inteligência artificial pode ser a resposta à demografia

Existe uma variável capaz de alterar parcialmente os termos do triângulo europeu: a produtividade. Uma sociedade com menos trabalhadores não está inevitavelmente condenada a produzir menos; precisa de conseguir que cada trabalhador produza mais valor. É aqui que a inteligência artificial assume, para a Europa, uma importância qualitativamente diferente da que assume para os Estados Unidos. Para a economia americana, com demografia mais favorável e imigração sustentada, a IA é uma extraordinária oportunidade de crescimento. Para a Europa, pode tornar-se uma necessidade demográfica.

As aplicações são concretas e transversais: automatizar processos administrativos num continente cuja burocracia é reconhecidamente pesada; aumentar a produtividade industrial em setores onde a Europa ainda detém vantagens; acelerar a investigação científica; apoiar sistemas de saúde pressionados pelo envelhecimento; transformar serviços públicos; utilizar robótica em setores com falta estrutural de trabalhadores, da construção aos cuidados a idosos; e ampliar a capacidade das pequenas e médias empresas, que constituem a espinha dorsal do tecido económico europeu. A IA pode permitir que uma população ativa menor sustente uma economia maior. Não resolve todos os problemas, mas altera profundamente a equação: é a única variável do triângulo que atua simultaneamente sobre os três vértices, financiando o Estado social por via da produtividade, reforçando a capacidade estratégica e constituindo, ela própria, a revolução tecnológica em causa.

Daí a conclusão incontornável: a Europa não se pode limitar a ser o continente que regulamenta a inteligência artificial dos outros. Precisa de a possuir, desenvolver, implementar, utilizar e escalar. Um continente que enfrenta o défice demográfico europeu e trata a tecnologia que pode compensá-lo primordialmente como um risco a conter, e não como uma capacidade a construir, está a cometer um erro estratégico de primeira ordem.

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## XIV. E depois existe a imigração

Nenhuma discussão séria sobre o futuro demográfico europeu pode evitar este tema, por mais politicamente inflamável que seja. A aritmética é simples: a Europa precisa de trabalhadores. Mas a imigração não é simplesmente uma variável económica que se ajusta num modelo. É também habitação, escolas, cultura, identidade, integração, segurança, coesão social e capacidade administrativa. A ideia de que basta importar população para resolver o envelhecimento é demasiado simples, e a experiência europeia recente demonstra os custos políticos de a tratar como tal.

Mas a ideia oposta é igualmente insustentável. Uma Europa que envelhece rapidamente, fecha completamente as fronteiras e mantém taxas de natalidade na ordem de 1,4 a 1,5 filhos por mulher, muito abaixo do nível de substituição de 2,1, dificilmente conseguirá preservar em simultâneo crescimento económico, pensões, cuidados de saúde e serviços públicos sem aumentos de produtividade de uma magnitude que nenhuma economia desenvolvida alguma vez alcançou de forma sustentada.

A política europeia terá, portanto, de encontrar um equilíbrio que ainda não encontrou: atrair as pessoas de que economicamente necessita e construir sociedades capazes de as integrar socialmente. Os dois termos são indissociáveis, e o falhanço de qualquer um deles alimenta o falhanço do outro. O fracasso na integração alimentará movimentos políticos que procurarão fechar as fronteiras; o encerramento completo agravará os problemas demográficos, o que degradará os serviços públicos e alimentará novo descontentamento. É um dos dilemas políticos mais difíceis das próximas décadas, e um daqueles em que a ausência de estratégia é, em si mesma, uma estratégia: a pior.

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## XV. Cinco Europas possíveis em 2050

Não existe um futuro inevitável. Existem escolhas, e é útil torná-las explícitas sob a forma de cenários. Nenhum destes cinco futuros é uma previsão; cada um é a extrapolação disciplinada de um conjunto de decisões, ou de não-decisões, tomadas nos próximos dez anos.

**Cenário 1: a Europa-museu.** A Europa continua rica, bonita, segura e socialmente sofisticada. É excelente para viver, excelente para visitar, excelente para estudar. Mas depende dos outros para quase tudo aquilo que determina poder: defesa americana, cloud americana, inteligência artificial americana, semicondutores asiáticos, matérias-primas externas, energia importada. Não seria necessariamente pobre; seria dependente. Talvez seja este o cenário mais perigoso, precisamente porque pode permanecer confortável durante muito tempo, adiando indefinidamente o momento do reconhecimento.

**Cenário 2: a Europa-fortaleza.** Perante a insegurança, a imigração e a competição económica, cada país volta-se para si próprio: mais nacionalismo, mais protecionismo, mais fronteiras, mais política industrial nacional, mais despesa militar nacional. O problema é estrutural: nenhum país europeu possui, sozinho, a escala das grandes potências globais. Uma Europa de 27 fortalezas pode sentir-se mais soberana e tornar-se coletivamente menos soberana. É o cenário em que a emoção da soberania destrói a substância da soberania.

**Cenário 3: a Europa americana.** A Europa aceita uma dependência estratégica permanente dos Estados Unidos: compra tecnologia americana, armas americanas, cloud americana, modelos de inteligência artificial americanos, e mantém a NATO como garantia fundamental de segurança. Pode ser uma escolha racional, e durante setenta anos funcionou. Mas significa aceitar que uma parte relevante da autonomia europeia existe dentro dos limites, e da boa vontade, da relação transatlântica. Trump tornou visível o risco desta opção: a dependência é confortável enquanto quem nos protege quiser continuar a fazê-lo nas condições que esperamos. Deixou de ser possível assumir que quererá.

**Cenário 4: a Europa irrelevante.** Não há colapso; há erosão. Crescimento baixo, produtividade insuficiente, dívida elevada, envelhecimento, fuga de investimento, empresas tecnológicas que partem para crescer noutros mercados, fragmentação persistente, incapacidade de decisão. Ninguém anuncia o dia em que a Europa deixa de ser uma grande potência. Simplesmente chega-se a um momento em que as decisões fundamentais são tomadas em Washington, Pequim e Nova Deli, e Bruxelas reage. A irrelevância não se decreta: acumula-se.

**Cenário 5: a Europa-potência.** Existe outra possibilidade, e os seus componentes são conhecidos porque estão descritos, com detalhe, nos relatórios Draghi e Letta: uma verdadeira integração dos mercados de capitais, uma estratégia energética continental, uma indústria de defesa europeia com compras militares coordenadas, infraestruturas comuns de inteligência artificial, capacidade própria em tecnologias críticas, investimento científico à escala continental, um mercado verdadeiramente único para empresas digitais, uma política comum para matérias-primas e uma estratégia migratória simultaneamente económica e social. Não significa necessariamente criar de imediato os Estados Unidos da Europa. Significa reconhecer que existem domínios em que a soberania nacional isolada deixou de produzir soberania real, e agir em conformidade.

**Tabela 5. Síntese dos cenários**

| Cenário | Motor principal | Riqueza em 2050 | Poder em 2050 | Reversibilidade |
|---|---|---|---|---|
| Europa-museu | Inércia confortável | Alta | Baixo | Decrescente |
| Europa-fortaleza | Nacionalismo defensivo | Média/baixa | Fragmentado | Difícil |
| Europa americana | Subcontratação estratégica | Alta | Condicionado | Dependente de terceiros |
| Europa irrelevante | Erosão não gerida | Média | Residual | Muito difícil |
| Europa-potência | Integração seletiva e escala | Alta | Alto | Autossustentada |

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## XVI. O problema de Trump pode ser o método

É aqui que regressamos ao ponto de partida. Talvez Trump tenha razão quando diz que a Europa precisa de pagar mais pela própria segurança. Pode estar certo quando afirma que a dependência industrial é perigosa. Pode estar certo quando trata tecnologia, energia e indústria como componentes do poder nacional. Pode estar certo quando considera que a velha globalização criou vulnerabilidades estratégicas. Nada disto significa que esteja certo naquilo que faz com esse diagnóstico.

Hostilizar aliados pode destruir uma das maiores vantagens estratégicas dos Estados Unidos. As democracias ocidentais, quando combinadas, continuam a representar uma concentração extraordinária de capital, tecnologia, conhecimento e poder militar: mais de metade da despesa militar mundial, a maioria da investigação científica de fronteira, os principais centros financeiros. A China tem parceiros; os Estados Unidos têm aliados. Não é a mesma coisa, e a diferença vale mais do que qualquer tarifa alguma vez renderá. As tarifas podem proteger certas indústrias e, simultaneamente, aumentar custos para muitas outras, funcionando como um imposto difuso sobre a própria economia. A imprevisibilidade pode criar capacidade negocial pontual; também destrói a confiança, que é o capital acumulado de oito décadas de ordem liderada pelos Estados Unidos.

Trump pode, portanto, estar certo sobre parte da doença e profundamente errado sobre o medicamento. E daqui decorre a conclusão essencial para o lado de cá do Atlântico: a Europa não precisa de se tornar trumpista para reconhecer o diagnóstico. Precisa apenas de deixar de confundir a crítica ao mensageiro com a refutação da mensagem.

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## XVII. Talvez o erro europeu tenha sido acreditar na permanência

Durante décadas, a Europa acreditou que a paz era permanente. Que a energia barata continuaria disponível. Que os Estados Unidos continuariam sempre a pagar pela segurança. Que se podia deslocar indústria para outros países sem consequências estratégicas. Que a tecnologia estaria sempre acessível no mercado, a preço de mercado. Que a interdependência impediria conflitos. Que regular uma tecnologia era quase tão importante como dominá-la. Que era possível envelhecer, crescer pouco, investir insuficientemente e manter indefinidamente um dos modelos sociais mais generosos da História.

Cada uma destas crenças era compreensível no seu contexto, e várias foram racionais durante muito tempo. Talvez o grande erro estratégico europeu não tenha sido cada uma destas decisões isoladamente. Talvez tenha sido acreditar que se podia fazer tudo isto em simultâneo e para sempre. A História, como escreveu alguém, não termina: apenas faz pausas. A pausa europeia durou três décadas. Terminou algures entre a anexação da Crimeia, a pandemia, a invasão da Ucrânia e o regresso da palavra "poder" ao vocabulário de Bruxelas.

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## XVIII. 1975-2050: quatro atos de uma mudança histórica

A transformação descrita ao longo deste documento pode ser condensada numa cronologia de quatro atos.

**1975: o Ocidente no centro.** As grandes democracias industriais dominam a economia, a tecnologia, o capital e o poder militar. A China ainda não é uma potência económica global. A Europa cresce protegida pela aliança americana, e o G7 nasce como espelho institucional dessa hegemonia.

**1991: a ilusão da vitória definitiva.** A União Soviética desaparece. O E7 representa apenas cerca de 35% da dimensão do G7 em paridade de poder de compra. A democracia liberal e a economia de mercado parecem ter vencido a grande disputa ideológica do século, e essa aparência de vitória final torna-se, paradoxalmente, o berço da complacência.

**2016-2026: o poder regressa.** O E7 ultrapassa o G7 em PPC. As economias emergentes e em desenvolvimento passam a representar a maioria da produção mundial nessa métrica. China e Estados Unidos entram em competição tecnológica aberta. A guerra territorial regressa à Europa. Energia, semicondutores e inteligência artificial tornam-se questões de segurança nacional. A NATO redefine drasticamente as metas de investimento em defesa. A Europa redescobre a palavra "poder".

**2050: a escolha.** A Europa terá envelhecido: rácios de dependência na ordem dos 50%, cerca de dois ativos por idoso. Representará provavelmente uma parcela menor da economia mundial. Terá de financiar muito mais defesa e precisará de produzir muito mais com uma população ativa proporcionalmente menor. A única questão em aberto é saber se chegará a 2050 mais integrada e estrategicamente autónoma, ou mais rica em património e mais pobre em poder.

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## XIX. E se Trump tiver visto primeiro?

Talvez Donald Trump esteja profundamente errado em muitas respostas. Talvez esteja errado na forma como trata os aliados. Talvez esteja errado na utilização das tarifas. Talvez confunda frequentemente imprevisibilidade com estratégia, e talvez uma parte daquilo que parece cálculo seja simplesmente improvisação. Mas existe uma possibilidade que a Europa não pode dar-se ao luxo de ignorar: a possibilidade de Trump estar certo sobre a pergunta fundamental. O mundo que permitiu ao Ocidente viver durante décadas como centro económico, tecnológico e estratégico do planeta está a desaparecer.

Convém ser rigoroso sobre o que isto significa e sobre o que não significa. Não significa o fim do Ocidente. Não significa o colapso inevitável da Europa. Não significa que a China venha a dominar o mundo: as projeções não são destinos, a China também envelhece, e a um ritmo ainda mais acelerado do que a Europa; a Rússia tem profundas limitações económicas e demográficas; a Índia enfrenta enormes desafios internos; e o E7, recorde-se, não constitui uma aliança. O mundo poderá tornar-se não menos ocidental porque outro bloco o substituiu, mas simplesmente muito mais multipolar. E é precisamente nesse mundo, mais distribuído, mais competitivo e menos indulgente, que a Europa terá de decidir aquilo que pretende ser.

As respostas não exigem que a Europa renegue aquilo que é. A Europa não precisa de se tornar trumpista; precisa de se tornar estratégica. Não precisa de abandonar o Estado social; precisa de construir a produtividade capaz de o financiar. Não precisa de abandonar a regulação; precisa de voltar também a criar aquilo que regula. Não precisa de abandonar a aliança americana; precisa de ser suficientemente forte para que essa aliança seja uma escolha, e não uma dependência absoluta. Não precisa de abandonar os seus valores para recuperar poder; precisa de compreender que os valores só influenciam verdadeiramente a História quando existe capacidade para os defender.

Talvez, por isso, a grande pergunta dos próximos vinte anos não seja saber se a Europa continuará a ser um bom lugar para viver. Provavelmente continuará. A pergunta é outra: **continuará a Europa a ter poder suficiente para decidir as condições em que vive?**

Trump passará. A redistribuição do poder mundial ficará. A verdadeira escolha da Europa não é entre Donald Trump e o mundo que existia antes de Donald Trump, porque esse mundo já não existe. A escolha é entre adaptar-se enquanto ainda possui riqueza, conhecimento, instituições e escala suficientes para determinar o seu futuro, ou continuar a administrar cuidadosamente o presente até descobrir que já não controla o amanhã.

Durante décadas, perguntámos quanto custaria à Europa tornar-se verdadeiramente uma potência. Talvez esteja na altura de fazer a pergunta inversa: **quanto nos custará não o fazer?**

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## Notas metodológicas e fontes

**Sobre o conceito de E7.** O E7 (China, Índia, Indonésia, Brasil, Rússia, México, Turquia) é uma construção analítica popularizada pela PwC nos estudos da série "The World in 2050". Não corresponde a qualquer organização, aliança ou bloco político. Todas as comparações E7/G7 neste documento têm por base o relatório de fevereiro de 2017, elaborado antes da pandemia, da guerra na Ucrânia e da atual fragmentação comercial; os valores para 2040 e 2050 devem ser lidos como projeções condicionais, não como previsões.

**Sobre as métricas de PIB.** As comparações em paridade de poder de compra (PPC) utilizam os fatores de conversão do Programa de Comparação Internacional, refletidos nas bases de dados do FMI (World Economic Outlook) e do Banco Mundial. As quotas de produção mundial das economias emergentes e em desenvolvimento (na ordem dos 60% em PPC nos dados mais recentes do FMI) referem-se ao agregado "Emerging Market and Developing Economies" da classificação do FMI, mais amplo do que o E7. Os valores do Gráfico 2 são aproximados e arredondados; para utilização em publicação, recomenda-se a extração direta da série da edição mais recente do World Economic Outlook.

**Sobre a demografia.** Idade mediana da UE (39,6 anos em 2005; 44,9 em 2025), população com 65 ou mais anos (perto de cem milhões) e rácio de dependência dos idosos (34,5% no início de 2025, definição 65+/15-64) provêm do Eurostat (indicadores de estrutura populacional e envelhecimento). O rácio de quase quatro ativos (20-64) por idoso em 2004, e de menos de três em 2024, provém das mesmas séries. As projeções para 2050 baseiam-se nos exercícios EUROPOP do Eurostat e devem ser tratadas como intervalos, não como valores pontuais.

**Sobre competitividade e investimento.** As necessidades adicionais de investimento de 750 a 800 mil milhões de euros por ano (cerca de 4,5% do PIB da UE), o fosso de produtividade face aos EUA, os diferenciais de preços de energia, a estatística sobre as maiores empresas tecnológicas mundiais e os dados sobre aquisições de defesa (78% extra-UE, 63% junto de fornecedores dos EUA, entre meados de 2022 e meados de 2023) provêm de M. Draghi, "The Future of European Competitiveness" (setembro de 2024). A estimativa de cerca de 300 mil milhões de euros anuais de poupança europeia canalizada para fora da União provém de E. Letta, "Much More Than a Market" (abril de 2024). A comparação com o Plano Marshall (1% a 2% do PIB dos beneficiários) é uma ordem de grandeza histórica convencional, usada pelo próprio relatório Draghi.

**Sobre defesa.** As metas de 5% do PIB até 2035 (3,5% em capacidades militares centrais e até 1,5% em resiliência e segurança alargada) provêm da declaração da Cimeira da NATO na Haia (junho de 2025). As médias históricas de despesa dos aliados europeus (cerca de 1,5% em 2014; cerca de 2% em 2024) provêm das publicações anuais "Defence Expenditure of NATO Countries". A referência à diversidade de sistemas de armamento europeus (cerca de uma dúzia de modelos de carros de combate face a um nos EUA) é citada no relatório Draghi.

**Sobre tecnologia.** A concentração da produção de semicondutores avançados na TSMC (na ordem de 90% dos nós mais avançados), o monopólio da ASML na litografia EUV e a quota das três grandes empresas americanas no mercado europeu de cloud (na ordem de 70%) correspondem a estimativas de mercado amplamente publicadas (SIA, TrendForce, Synergy Research) e citadas em documentos oficiais europeus; devem ser verificadas na fonte à data de publicação.

**Estatuto do documento.** Este texto é uma base de trabalho analítica destinada a reflexão e discussão. Os números foram selecionados pela sua robustez e rastreabilidade, mas qualquer utilização editorial deve confirmar os valores nas fontes primárias indicadas, em particular os que dependem de edições anuais atualizáveis (FMI, Eurostat, NATO).



**Sobre o ponto de partida.** A reflexão que originou este texto foi despertada pelo podcast "O Domínio da Guerra", do Observador, com o major-general Arnaut Moreira em conversa com Maria João Simões. Disponível em: https://observador.pt/programas/o-dominio-da-guerra/