# A Era da Opinião Sem Factos

*Num mundo onde a opinião substituiu a informação, os comentadores substituíram os jornalistas e as máquinas começam a decidir por nós, formar uma opinião tornou-se o acto mais difícil e mais urgente da nossa era.*

---

Confesso: tenho cada vez mais dificuldade em formar opinião sobre o que quer que seja.

Não por falta de informação, mas por excesso dela. Não por falta de vozes, mas por excesso de ruído. Não por desinteresse, mas por exaustão perante um ecossistema mediático que trocou os factos pela performance, o rigor pela velocidade, e o escrutínio pela cavaqueira.

E se isto me acontece a mim, alguém que gosta de pensar pela sua cabeça, que precisa de dados para tomar decisões, que quer formar uma opinião própria com base no que é verdade e não no que alguém acha, imagino o que acontece a todos os outros. Porque na verdade todos precisamos do mesmo. Todos precisamos de factos para decidir. Todos precisamos de verdade para escolher. A democracia, a economia, a vida familiar, a saúde: tudo depende da qualidade da informação que nos chega. E essa qualidade está a degradar-se a uma velocidade que não estamos a acompanhar.


## O triunfo do comentário sobre o facto

Quando a Gallup começou a medir a confiança dos americanos nos media, nos anos 70, entre 68% e 72% das pessoas acreditavam que a imprensa reportava as notícias de forma completa, rigorosa e justa. Em 2025, esse número caiu para 28%, o valor mais baixo de sempre. Cerca de sete em cada dez americanos dizem ter pouca ou nenhuma confiança nos media. Entre os mais jovens, a confiança não ultrapassa os 28%. Na geração com mais de 65 anos, sobe para 43%, mas mesmo esse número seria impensável há duas décadas.

O fenómeno não é americano. É global. O Reuters Institute Digital News Report de 2025, que abrange 48 países em seis continentes, mostra que a confiança global nas notícias está estagnada nos 40% pelo terceiro ano consecutivo. E 58% das pessoas dizem sentir-se inseguras na sua capacidade de distinguir verdade de falsidade nas notícias online. Não estamos a falar de pessoas ignorantes. Estamos a falar da maioria de nós.

Portugal não é uma excepção a esta tendência. É antes um caso particularmente revelador. No Digital News Report de 2025, a confiança dos portugueses nas notícias situa-se nos 54%, colocando o país na 7.ª posição entre 48 mercados. À primeira vista, parece um resultado confortável. Mas a leitura atenta revela outra coisa: este valor representa uma queda de oito pontos e o nível mais baixo desde que a série de medição começou em 2015. Entre os jovens portugueses dos 18 aos 24 anos, a confiança nos media tradicionais caiu para os 31%, com a maioria a preferir TikTok e Instagram como fontes primárias de notícias. Plataformas onde o comentário domina o facto e o algoritmo decide o que é relevante.

O que isto nos diz é que mesmo países com confiança comparativamente alta podem deslizar para a fadiga informativa quando o ambiente se torna saturado, conflituoso e estruturalmente desprovido de recursos no lado da reportagem.


## A fábrica de opiniões sem matéria-prima

Liguem a televisão portuguesa num dia qualquer. SIC Notícias, CNN Portugal, CMTV, a nova RTP Notícias. Contem o tempo. O que encontram é um formato repetido até à exaustão: um jornalista sentado com alguém, um comentador, um "analista", um "especialista", em plena conversa sobre o tema do dia.

Esse alguém, caído sabe-se lá de onde, opina sobre tudo e mais alguma coisa. Diz o que devia ter acontecido. Prevê o que vai acontecer. Explica o que ele acha. Tem rubrica própria. Dá notas, como se a governação fosse um exame de liceu. Há quem tenha até segmentos sobre "quem merece e quem desmerece", como se o exercício do poder público pudesse ser avaliado num sistema binário de estrelas.

Os números confirmam a percepção. Durante a cobertura das eleições legislativas de 2025, um período em que, por lei, existe maior regulação, a Entidade Reguladora para a Comunicação Social documentou que o comentário político representou 26% do tempo na SIC Notícias e 28% na CNN Portugal. Estes são valores de campanha eleitoral, quando a supervisão é mais apertada. Fora desse período, a proporção será certamente superior, embora não exista ainda uma medição sistemática para o quotidiano.

A ERC identificou aliás um padrão estrutural: o pluralismo nos canais de notícias portugueses é frequentemente confundido com a multiplicação de comentadores fixos, onde um grupo restrito de menos de cem pessoas ocupa a esmagadora maioria das rubricas de comentário. A diversidade de vozes não é diversidade de factos. É diversidade de opiniões sobre os mesmos factos, quando os factos existem.

A razão é também económica, e convém dizê-lo sem rodeios. Um estudo da União Europeia de Radiodifusão de 2025 indica que produzir uma hora de jornalismo de investigação custa cerca de 22 vezes mais do que produzir uma hora de debate em estúdio. Vinte e duas vezes. A "cavaqueira" não é apenas um vício editorial. É um modelo de negócio. Quando as receitas caem e as redacções encolhem, o comentário é o substituto mais barato da reportagem. O problema é que um não faz o trabalho do outro.

Depois, e esta é a questão central, ninguém volta atrás. Ninguém pergunta: aquilo que o comentador previu, aconteceu? Os números que citou estavam certos? A solução que propôs era viável? O escrutínio editorial, que deveria ser a espinha dorsal do jornalismo, ficou nas mãos de quem nunca o exerceu sobre si próprio.

O Reuters Institute captou esta contradição com clareza: o público quer que os jornalistas passem o seu tempo a investigar os poderosos e a oferecer profundidade analítica, não a perseguir algoritmos por cliques. As pessoas pedem factos. Recebem opiniões.


## O banco dos réus sem regras

Há um padrão que se repete, noite após noite. Pivots e comentadores colocam decisores, sejam ministros, autarcas, gestores ou dirigentes, num banco de réus improvisado. Fazem-no sem as regras de um tribunal, sem o contraditório de um debate sério, sem o respeito mínimo por quem carrega o peso real das decisões.

É fácil comentar. É extraordinariamente difícil decidir.

Quem decide vive com a incerteza, com a informação incompleta, com as consequências reais de cada escolha. Quem comenta vive com a certeza retrospectiva, o luxo de saber como as coisas "deviam ter sido" depois de terem acontecido. Daniel Kahneman chamou-lhe *hindsight bias*. A televisão portuguesa transformou-o em modelo de negócio.

Numa era em que todos sabem como se devia fazer, muito poucos fazem. E ainda menos se submetem ao escrutínio daquilo que fazem. A assimetria é brutal: quem age é julgado por quem não age. Quem arrisca é avaliado por quem nunca arriscou. E quem comete erros, porque decidir implica sempre errar, é tratado como réu por quem nunca teve de decidir coisa nenhuma.


## A paralisia de quem precisa de verdade para pensar

O problema não é apenas mediático. É civilizacional.

Quando 52% dos americanos admitem ter dificuldade em determinar o que é verdade durante uma eleição, como revelou a Pew Research em 2024, não estamos perante uma falha da educação. Estamos perante uma falha sistémica. A informação tornou-se cognitivamente cara. Não porque não exista, mas porque está enterrada sob camadas de opinião, manipulação e ruído.

Na Europa, o retrato não é muito diferente. O Eurobarómetro de 2025 reporta que 66% dos europeus foram expostos a desinformação pelo menos uma vez na última semana. E embora 61% digam sentir-se confiantes na sua capacidade de a reconhecer, a investigação mostra consistentemente que essa confiança não corresponde à competência real. É a armadilha moderna: alta confiança, competência desigual. Achamos que sabemos distinguir o verdadeiro do falso, mas quando testados, falhamos com frequência preocupante.

Na Austrália, durante as eleições federais de 2025, investigação da Universidade de Canberra revelou que 60% dos adultos encontraram desinformação eleitoral nas duas semanas anteriores ao voto. E o dado mais perturbante não é esse. É que quando as pessoas suspeitam que algo é desinformação, são mais propensas a ignorá-la do que a verificar os factos. O *burnout* político é real. A exaustão informativa gera desistência, não esclarecimento. Um em cada três eleitores europeus afirma evitar as notícias para proteger a sua saúde mental, segundo a London School of Economics.

Pensem nisto. Não estamos a falar de pessoas preguiçosas ou indiferentes. Estamos a falar de pessoas que desistiram. Que se cansaram de nadar num oceano de opiniões sem encontrar terra firme. Que precisam de factos e não os encontram, de verdade e não a conseguem distinguir, de rigor e só encontram espectáculo.


## O deserto onde ninguém conta o que acontece

Para compreender como chegámos aqui, é preciso olhar para o que desapareceu silenciosamente por trás do ruído.

Nos Estados Unidos, o emprego nos jornais caiu 57% entre 2008 e 2020, de cerca de 71.000 para 31.000 profissionais. Entre o final de 2019 e maio de 2022, desapareceram em média dois jornais por semana, deixando cerca de 70 milhões de pessoas naquilo que os investigadores da Northwestern chamam "desertos informativos", comunidades sem cobertura jornalística regular. Em 2025, registaram-se pelo menos 3.400 cortes de empregos no jornalismo no Reino Unido e nos EUA, um número que é explicitamente um sub-registo porque apenas conta redundâncias anunciadas publicamente. No início de 2026, a Associated Press anunciou *buyouts* voluntários e a BBC propôs fechar a sua unidade de jornalismo de investigação nas regiões inglesas, uma unidade que tinha menos de quatro anos de existência.

O jornalismo de investigação, aquele que realmente descobre, apura, verifica e confronta, representa apenas 1% a 2% do total da produção jornalística. E esse número tem vindo a cair. Quando investigadores da Stanford Graduate School of Business analisaram 6 milhões de artigos de jornais americanos, encontraram uma queda significativa no conteúdo investigativo a partir de 2019, coincidindo com as vagas de despedimentos.

Em Portugal, os "desertos" são regionais mas reais. Com o fecho de delegações de jornais nacionais e a crise profunda da imprensa regional, distritos como Beja, Portalegre e Bragança têm hoje uma cobertura de proximidade quase nula. O espaço que o jornalismo deixou vazio foi ocupado por grupos de Facebook e de WhatsApp onde a opinião reina sem contraditório, sem verificação e sem responsabilidade. O grupo Global Media, que publica o Jornal de Notícias, o Diário de Notícias e detém a TSF, atravessou em 2024 e 2025 um dos períodos mais negros da sua história, com rescisões colectivas e uma fragilidade financeira que põe em causa a sobrevivência de títulos centenários. O grupo Impresa registou perdas de 66 milhões de euros em 2024.

Quando a capacidade de produção de factos encolhe, o sistema preenche o tempo de antena com conversa interpretativa de baixo custo. Não é uma falha moral dos jornalistas individualmente. É um efeito de substituição estrutural. E é aqui que a ponte se faz com o que vem a seguir.


## A máquina que decide quando o humano desiste

É neste vazio, de factos, de rigor, de confiança, que as máquinas entram.

Vivemos um momento de inflexão. Pela primeira vez na história, sistemas automatizados de decisão estão a ser integrados em processos que afectam directamente a vida das pessoas: crédito, emprego, justiça, saúde, segurança social. O AI Act da União Europeia, que entrou em plena aplicação entre 2025 e 2026, reconhece formalmente que estes sistemas representam riscos elevados para os direitos fundamentais. Em Portugal, o Ministério da Justiça começou em 2025 a testar sistemas de inteligência artificial para o resumo de sentenças e apoio à decisão judicial, e o Conselho Superior da Magistratura já identificou o "viés de automação" como uma preocupação oficial.

O caso do sistema espanhol Viogén, um algoritmo que avalia o risco de violência doméstica, é ilustrativo. Uma auditoria independente citando investigação anterior reporta que a avaliação de risco do sistema permanece inalterada em 95% dos casos. Noventa e cinco por cento. Quando os profissionais de primeira linha raramente corrigem a máquina, por falta de tempo, de formação ou simplesmente de incentivo para o fazer, o *output* automático torna-se a decisão operacional de facto.

O Boeing 737 MAX tornou-se o caso trágico desta dinâmica. O sistema MCAS automatizava ajustes de estabilização, partindo do princípio de que os pilotos geririam as situações complexas. Mas quando a interface falhou, por falta de transparência no *design* e treino insuficiente, os pilotos hesitaram ou não conseguiram sobrepor-se à máquina. O resultado foram dois desastres fatais em 2018 e 2019. A lição é amarga: quando se assume que humanos e máquinas se complementam naturalmente, sem desenhar essa complementaridade com rigor, o resultado pode ser o pior dos dois mundos.

Investigação recente de Harvard Business School é clara: a inteligência artificial não substitui o julgamento humano. A diferença entre quem beneficia da IA e quem é prejudicado por ela está na experiência e no contexto de quem a usa. Quem tem julgamento suficiente para contextualizar as sugestões da máquina tira partido delas. Quem aceita recomendações genéricas sem capacidade de as avaliar arrisca decisões piores do que se não tivesse usado ferramenta nenhuma.

E aqui reside o paradoxo central do nosso tempo: estamos a delegar decisões às máquinas precisamente no momento em que a nossa capacidade de pensamento crítico está mais degradada. O jornalismo que deveria treinar o nosso músculo analítico substituiu a investigação pela tertúlia. A escola, que deveria ensinar literacia mediática, ainda não a integrou de forma estruturada na maioria dos países. A Finlândia, que lidera consistentemente o Índice de Literacia Mediática europeu, inclui esta formação no currículo desde o pré-escolar. Portugal, embora tenha subido para a 15.ª posição europeia nesse índice, falha gravemente naquilo que se pode chamar "literacia algorítmica", a capacidade de compreender porque é que uma notícia aparece no nosso *feed* e outra não.

A nível global, estima-se que em 2026 cerca de 35% das tarefas de redacção jornalística, como notícias curtas, resumos, meteorologia e resultados desportivos, já sejam realizadas por inteligência artificial generativa. O jornalista humano está a ser empurrado para um de dois papéis: curador de opinião ou, idealmente, investigador. O problema é que o primeiro é barato e o segundo é caro. E o mercado, deixado a si mesmo, escolhe sempre o barato.


## O que podemos fazer, e o que devemos exigir

Não escrevo isto com a pretensão de ter soluções simples para problemas complexos. Escrevo-o porque acredito que nomear o problema com clareza já é, por si só, um acto de resistência numa era que prefere o ruído à reflexão.

O futuro não se constrói com mais opiniões. Constrói-se com melhor informação, melhor escrutínio e mais coragem para decidir com base no que é verdade, mesmo quando a verdade é incómoda.

Precisamos de exigir que os media voltem aos factos. Que os comentadores sejam confrontados com as suas previsões falhadas, porque um comentador que prevê consistentemente o que não acontece não é um analista, é um entertainer. Que os números sejam apresentados com contexto e rigor, não como armas de arremesso. Que o jornalismo de investigação seja tratado como infraestrutura democrática, tão essencial como estradas ou hospitais. É revelador que, no Reino Unido, após os cortes na BBC, o governo tenha sido obrigado a reinvestir em parcerias de notícias locais para combater os desertos informativos, reconhecendo que a opinião centralizada estava a alienar as audiências que mais precisavam de informação.

Precisamos de ensinar literacia mediática desde a escola primária. De criar hábitos de verificação antes de partilha. De reconhecer que a humildade epistémica, admitir que não sabemos, é mais valiosa do que a falsa certeza de quem opina sobre tudo.

E precisamos de uma relação diferente com a tecnologia. A inteligência artificial é uma ferramenta extraordinária quando usada por quem sabe fazer as perguntas certas. É perigosa quando usada por quem já desistiu de pensar. Não é a máquina que ameaça a nossa humanidade. É a nossa desistência de a exercer.

A intuição humana, aquela que nasce da experiência, da rotina de decidir e de viver com as consequências, não é um luxo do passado. É o recurso mais escasso e mais valioso da era que agora começa. Numa altura em que vivemos aquilo que se pode chamar uma "infodemia de segunda geração", já não apenas o excesso de informação mas a poluição da informação por conteúdos gerados sinteticamente que mimetizam autoridade sem base factual, essa intuição treinada, essa capacidade de parar e perguntar "isto é verdade?", é o que nos separa da capitulação.

Num mundo de máquinas que calculam, precisamos de humanos que pensem. Num mundo de opiniões sem custo, precisamos de decisões com responsabilidade. Num mundo de ruído infinito, precisamos do silêncio dos factos.

A questão já não é se conseguimos construir o futuro com humanidade e rigor. É se ainda queremos.

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### Fontes e dados de referência

**Confiança nos media.** Gallup, 2025: confiança nos EUA caiu para 28%, mínimo histórico desde os anos 70 (68-72%). Republicanos: 8%; Democratas: 54%; menores de 65: máximo 28%. Reuters Institute Digital News Report 2025 (48 países, 6 continentes): confiança global estagnada nos 40%; 58% inseguros na distinção verdade/falsidade. Pew Research, 2024: 52% dos americanos com dificuldade em determinar verdade durante eleições.

**Portugal.** Digital News Report Portugal 2025 (OberCom/ISCTE): confiança nos 54% (7.º entre 48 mercados), mas queda de 8 pontos e nível mais baixo desde 2015. Jovens 18-24: 31% de confiança nos media tradicionais. Global Media Group: rescisões colectivas e crise financeira em 2024-2025. Impresa: perdas de 66,2M euros em 2024. ERC, cobertura legislativas 2025: comentário político = 26% na SIC Notícias, 28% na CNN Portugal. Menos de 100 comentadores fixos ocupam a maioria das rubricas nos canais de notícias. Desertos informativos regionais: Beja, Portalegre, Bragança com cobertura de proximidade quase nula.

**Declínio do jornalismo.** Emprego em jornais nos EUA: queda de 57% entre 2008 e 2020 (de aprox. 71.000 para aprox. 31.000). Média de 2 jornais a fechar por semana (2019-2022), aprox. 70M de pessoas em desertos informativos (Northwestern/Medill). Press Gazette: mais de 3.400 cortes em 2025 (UK+EUA). Stanford GSB: jornalismo de investigação = 1-2% do total; queda significativa a partir de 2019. EBU 2025: custo de 1h de investigação = 22x o custo de 1h de debate em estúdio.

**Desinformação e literacia.** Eurobarómetro 2025: 66% dos europeus expostos a desinformação semanalmente; 61% confiantes em reconhecê-la. Universidade de Canberra (eleições australianas 2025): 60% encontraram desinformação eleitoral. LSE: 1 em 3 eleitores europeus evita notícias por saúde mental. Media Literacy Index 2025: Finlândia em 1.º, Portugal em 15.º. Finlândia integra literacia mediática no currículo desde o pré-escolar.

**IA e decisão automatizada.** Sistema Viogén (Espanha): auditoria independente (Eticas Foundation) cita investigação anterior indicando que avaliação de risco permanece inalterada em 95% dos casos. Boeing 737 MAX: falha na complementaridade humano-máquina (MCAS) contribuiu para dois desastres fatais (2018-2019). Harvard Business School, 2025: IA não substitui julgamento humano; experiência é essencial para contextualizar recomendações. AI Act da UE: plena aplicação 2025-2026. Portugal: Ministério da Justiça testa IA para apoio à decisão judicial desde 2025. Estimativa 2026: 35% das tarefas de redacção jornalística já realizadas por IA generativa.
# A Era da Opinião Sem Factos

*Num mundo onde a opinião substituiu a informação, os comentadores substituíram os jornalistas e as máquinas começam a decidir por nós, formar uma opinião tornou-se o acto mais difícil e mais urgente da nossa era.*

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Confesso: tenho cada vez mais dificuldade em formar opinião sobre o que quer que seja.

Não por falta de informação, mas por excesso dela. Não por falta de vozes, mas por excesso de ruído. Não por desinteresse, mas por exaustão perante um ecossistema mediático que trocou os factos pela performance, o rigor pela velocidade, e o escrutínio pela cavaqueira.

E se isto me acontece a mim, alguém que gosta de pensar pela sua cabeça, que precisa de dados para tomar decisões, que quer formar uma opinião própria com base no que é verdade e não no que alguém acha, imagino o que acontece a todos os outros. Porque na verdade todos precisamos do mesmo. Todos precisamos de factos para decidir. Todos precisamos de verdade para escolher. A democracia, a economia, a vida familiar, a saúde: tudo depende da qualidade da informação que nos chega. E essa qualidade está a degradar-se a uma velocidade que não estamos a acompanhar.


## O triunfo do comentário sobre o facto

Quando a Gallup começou a medir a confiança dos americanos nos media, nos anos 70, entre 68% e 72% das pessoas acreditavam que a imprensa reportava as notícias de forma completa, rigorosa e justa. Em 2025, esse número caiu para 28%, o valor mais baixo de sempre. Cerca de sete em cada dez americanos dizem ter pouca ou nenhuma confiança nos media. Entre os mais jovens, a confiança não ultrapassa os 28%. Na geração com mais de 65 anos, sobe para 43%, mas mesmo esse número seria impensável há duas décadas.

O fenómeno não é americano. É global. O Reuters Institute Digital News Report de 2025, que abrange 48 países em seis continentes, mostra que a confiança global nas notícias está estagnada nos 40% pelo terceiro ano consecutivo. E 58% das pessoas dizem sentir-se inseguras na sua capacidade de distinguir verdade de falsidade nas notícias online. Não estamos a falar de pessoas ignorantes. Estamos a falar da maioria de nós.

Portugal não é uma excepção a esta tendência. É antes um caso particularmente revelador. No Digital News Report de 2025, a confiança dos portugueses nas notícias situa-se nos 54%, colocando o país na 7.ª posição entre 48 mercados. À primeira vista, parece um resultado confortável. Mas a leitura atenta revela outra coisa: este valor representa uma queda de oito pontos e o nível mais baixo desde que a série de medição começou em 2015. Entre os jovens portugueses dos 18 aos 24 anos, a confiança nos media tradicionais caiu para os 31%, com a maioria a preferir TikTok e Instagram como fontes primárias de notícias. Plataformas onde o comentário domina o facto e o algoritmo decide o que é relevante.

O que isto nos diz é que mesmo países com confiança comparativamente alta podem deslizar para a fadiga informativa quando o ambiente se torna saturado, conflituoso e estruturalmente desprovido de recursos no lado da reportagem.


## A fábrica de opiniões sem matéria-prima

Liguem a televisão portuguesa num dia qualquer. SIC Notícias, CNN Portugal, CMTV, a nova RTP Notícias. Contem o tempo. O que encontram é um formato repetido até à exaustão: um jornalista sentado com alguém, um comentador, um "analista", um "especialista", em plena conversa sobre o tema do dia.

Esse alguém, caído sabe-se lá de onde, opina sobre tudo e mais alguma coisa. Diz o que devia ter acontecido. Prevê o que vai acontecer. Explica o que ele acha. Tem rubrica própria. Dá notas, como se a governação fosse um exame de liceu. Há quem tenha até segmentos sobre "quem merece e quem desmerece", como se o exercício do poder público pudesse ser avaliado num sistema binário de estrelas.

Os números confirmam a percepção. Durante a cobertura das eleições legislativas de 2025, um período em que, por lei, existe maior regulação, a Entidade Reguladora para a Comunicação Social documentou que o comentário político representou 26% do tempo na SIC Notícias e 28% na CNN Portugal. Estes são valores de campanha eleitoral, quando a supervisão é mais apertada. Fora desse período, a proporção será certamente superior, embora não exista ainda uma medição sistemática para o quotidiano.

A ERC identificou aliás um padrão estrutural: o pluralismo nos canais de notícias portugueses é frequentemente confundido com a multiplicação de comentadores fixos, onde um grupo restrito de menos de cem pessoas ocupa a esmagadora maioria das rubricas de comentário. A diversidade de vozes não é diversidade de factos. É diversidade de opiniões sobre os mesmos factos, quando os factos existem.

A razão é também económica, e convém dizê-lo sem rodeios. Um estudo da União Europeia de Radiodifusão de 2025 indica que produzir uma hora de jornalismo de investigação custa cerca de 22 vezes mais do que produzir uma hora de debate em estúdio. Vinte e duas vezes. A "cavaqueira" não é apenas um vício editorial. É um modelo de negócio. Quando as receitas caem e as redacções encolhem, o comentário é o substituto mais barato da reportagem. O problema é que um não faz o trabalho do outro.

Depois, e esta é a questão central, ninguém volta atrás. Ninguém pergunta: aquilo que o comentador previu, aconteceu? Os números que citou estavam certos? A solução que propôs era viável? O escrutínio editorial, que deveria ser a espinha dorsal do jornalismo, ficou nas mãos de quem nunca o exerceu sobre si próprio.

O Reuters Institute captou esta contradição com clareza: o público quer que os jornalistas passem o seu tempo a investigar os poderosos e a oferecer profundidade analítica, não a perseguir algoritmos por cliques. As pessoas pedem factos. Recebem opiniões.


## O banco dos réus sem regras

Há um padrão que se repete, noite após noite. Pivots e comentadores colocam decisores, sejam ministros, autarcas, gestores ou dirigentes, num banco de réus improvisado. Fazem-no sem as regras de um tribunal, sem o contraditório de um debate sério, sem o respeito mínimo por quem carrega o peso real das decisões.

É fácil comentar. É extraordinariamente difícil decidir.

Quem decide vive com a incerteza, com a informação incompleta, com as consequências reais de cada escolha. Quem comenta vive com a certeza retrospectiva, o luxo de saber como as coisas "deviam ter sido" depois de terem acontecido. Daniel Kahneman chamou-lhe *hindsight bias*. A televisão portuguesa transformou-o em modelo de negócio.

Numa era em que todos sabem como se devia fazer, muito poucos fazem. E ainda menos se submetem ao escrutínio daquilo que fazem. A assimetria é brutal: quem age é julgado por quem não age. Quem arrisca é avaliado por quem nunca arriscou. E quem comete erros, porque decidir implica sempre errar, é tratado como réu por quem nunca teve de decidir coisa nenhuma.


## A paralisia de quem precisa de verdade para pensar

O problema não é apenas mediático. É civilizacional.

Quando 52% dos americanos admitem ter dificuldade em determinar o que é verdade durante uma eleição, como revelou a Pew Research em 2024, não estamos perante uma falha da educação. Estamos perante uma falha sistémica. A informação tornou-se cognitivamente cara. Não porque não exista, mas porque está enterrada sob camadas de opinião, manipulação e ruído.

Na Europa, o retrato não é muito diferente. O Eurobarómetro de 2025 reporta que 66% dos europeus foram expostos a desinformação pelo menos uma vez na última semana. E embora 61% digam sentir-se confiantes na sua capacidade de a reconhecer, a investigação mostra consistentemente que essa confiança não corresponde à competência real. É a armadilha moderna: alta confiança, competência desigual. Achamos que sabemos distinguir o verdadeiro do falso, mas quando testados, falhamos com frequência preocupante.

Na Austrália, durante as eleições federais de 2025, investigação da Universidade de Canberra revelou que 60% dos adultos encontraram desinformação eleitoral nas duas semanas anteriores ao voto. E o dado mais perturbante não é esse. É que quando as pessoas suspeitam que algo é desinformação, são mais propensas a ignorá-la do que a verificar os factos. O *burnout* político é real. A exaustão informativa gera desistência, não esclarecimento. Um em cada três eleitores europeus afirma evitar as notícias para proteger a sua saúde mental, segundo a London School of Economics.

Pensem nisto. Não estamos a falar de pessoas preguiçosas ou indiferentes. Estamos a falar de pessoas que desistiram. Que se cansaram de nadar num oceano de opiniões sem encontrar terra firme. Que precisam de factos e não os encontram, de verdade e não a conseguem distinguir, de rigor e só encontram espectáculo.


## O deserto onde ninguém conta o que acontece

Para compreender como chegámos aqui, é preciso olhar para o que desapareceu silenciosamente por trás do ruído.

Nos Estados Unidos, o emprego nos jornais caiu 57% entre 2008 e 2020, de cerca de 71.000 para 31.000 profissionais. Entre o final de 2019 e maio de 2022, desapareceram em média dois jornais por semana, deixando cerca de 70 milhões de pessoas naquilo que os investigadores da Northwestern chamam "desertos informativos", comunidades sem cobertura jornalística regular. Em 2025, registaram-se pelo menos 3.400 cortes de empregos no jornalismo no Reino Unido e nos EUA, um número que é explicitamente um sub-registo porque apenas conta redundâncias anunciadas publicamente. No início de 2026, a Associated Press anunciou *buyouts* voluntários e a BBC propôs fechar a sua unidade de jornalismo de investigação nas regiões inglesas, uma unidade que tinha menos de quatro anos de existência.

O jornalismo de investigação, aquele que realmente descobre, apura, verifica e confronta, representa apenas 1% a 2% do total da produção jornalística. E esse número tem vindo a cair. Quando investigadores da Stanford Graduate School of Business analisaram 6 milhões de artigos de jornais americanos, encontraram uma queda significativa no conteúdo investigativo a partir de 2019, coincidindo com as vagas de despedimentos.

Em Portugal, os "desertos" são regionais mas reais. Com o fecho de delegações de jornais nacionais e a crise profunda da imprensa regional, distritos como Beja, Portalegre e Bragança têm hoje uma cobertura de proximidade quase nula. O espaço que o jornalismo deixou vazio foi ocupado por grupos de Facebook e de WhatsApp onde a opinião reina sem contraditório, sem verificação e sem responsabilidade. O grupo Global Media, que publica o Jornal de Notícias, o Diário de Notícias e detém a TSF, atravessou em 2024 e 2025 um dos períodos mais negros da sua história, com rescisões colectivas e uma fragilidade financeira que põe em causa a sobrevivência de títulos centenários. O grupo Impresa registou perdas de 66 milhões de euros em 2024.

Quando a capacidade de produção de factos encolhe, o sistema preenche o tempo de antena com conversa interpretativa de baixo custo. Não é uma falha moral dos jornalistas individualmente. É um efeito de substituição estrutural. E é aqui que a ponte se faz com o que vem a seguir.


## A máquina que decide quando o humano desiste

É neste vazio, de factos, de rigor, de confiança, que as máquinas entram.

Vivemos um momento de inflexão. Pela primeira vez na história, sistemas automatizados de decisão estão a ser integrados em processos que afectam directamente a vida das pessoas: crédito, emprego, justiça, saúde, segurança social. O AI Act da União Europeia, que entrou em plena aplicação entre 2025 e 2026, reconhece formalmente que estes sistemas representam riscos elevados para os direitos fundamentais. Em Portugal, o Ministério da Justiça começou em 2025 a testar sistemas de inteligência artificial para o resumo de sentenças e apoio à decisão judicial, e o Conselho Superior da Magistratura já identificou o "viés de automação" como uma preocupação oficial.

O caso do sistema espanhol Viogén, um algoritmo que avalia o risco de violência doméstica, é ilustrativo. Uma auditoria independente citando investigação anterior reporta que a avaliação de risco do sistema permanece inalterada em 95% dos casos. Noventa e cinco por cento. Quando os profissionais de primeira linha raramente corrigem a máquina, por falta de tempo, de formação ou simplesmente de incentivo para o fazer, o *output* automático torna-se a decisão operacional de facto.

O Boeing 737 MAX tornou-se o caso trágico desta dinâmica. O sistema MCAS automatizava ajustes de estabilização, partindo do princípio de que os pilotos geririam as situações complexas. Mas quando a interface falhou, por falta de transparência no *design* e treino insuficiente, os pilotos hesitaram ou não conseguiram sobrepor-se à máquina. O resultado foram dois desastres fatais em 2018 e 2019. A lição é amarga: quando se assume que humanos e máquinas se complementam naturalmente, sem desenhar essa complementaridade com rigor, o resultado pode ser o pior dos dois mundos.

Investigação recente de Harvard Business School é clara: a inteligência artificial não substitui o julgamento humano. A diferença entre quem beneficia da IA e quem é prejudicado por ela está na experiência e no contexto de quem a usa. Quem tem julgamento suficiente para contextualizar as sugestões da máquina tira partido delas. Quem aceita recomendações genéricas sem capacidade de as avaliar arrisca decisões piores do que se não tivesse usado ferramenta nenhuma.

E aqui reside o paradoxo central do nosso tempo: estamos a delegar decisões às máquinas precisamente no momento em que a nossa capacidade de pensamento crítico está mais degradada. O jornalismo que deveria treinar o nosso músculo analítico substituiu a investigação pela tertúlia. A escola, que deveria ensinar literacia mediática, ainda não a integrou de forma estruturada na maioria dos países. A Finlândia, que lidera consistentemente o Índice de Literacia Mediática europeu, inclui esta formação no currículo desde o pré-escolar. Portugal, embora tenha subido para a 15.ª posição europeia nesse índice, falha gravemente naquilo que se pode chamar "literacia algorítmica", a capacidade de compreender porque é que uma notícia aparece no nosso *feed* e outra não.

A nível global, estima-se que em 2026 cerca de 35% das tarefas de redacção jornalística, como notícias curtas, resumos, meteorologia e resultados desportivos, já sejam realizadas por inteligência artificial generativa. O jornalista humano está a ser empurrado para um de dois papéis: curador de opinião ou, idealmente, investigador. O problema é que o primeiro é barato e o segundo é caro. E o mercado, deixado a si mesmo, escolhe sempre o barato.


## O que podemos fazer, e o que devemos exigir

Não escrevo isto com a pretensão de ter soluções simples para problemas complexos. Escrevo-o porque acredito que nomear o problema com clareza já é, por si só, um acto de resistência numa era que prefere o ruído à reflexão.

O futuro não se constrói com mais opiniões. Constrói-se com melhor informação, melhor escrutínio e mais coragem para decidir com base no que é verdade, mesmo quando a verdade é incómoda.

Precisamos de exigir que os media voltem aos factos. Que os comentadores sejam confrontados com as suas previsões falhadas, porque um comentador que prevê consistentemente o que não acontece não é um analista, é um entertainer. Que os números sejam apresentados com contexto e rigor, não como armas de arremesso. Que o jornalismo de investigação seja tratado como infraestrutura democrática, tão essencial como estradas ou hospitais. É revelador que, no Reino Unido, após os cortes na BBC, o governo tenha sido obrigado a reinvestir em parcerias de notícias locais para combater os desertos informativos, reconhecendo que a opinião centralizada estava a alienar as audiências que mais precisavam de informação.

Precisamos de ensinar literacia mediática desde a escola primária. De criar hábitos de verificação antes de partilha. De reconhecer que a humildade epistémica, admitir que não sabemos, é mais valiosa do que a falsa certeza de quem opina sobre tudo.

E precisamos de uma relação diferente com a tecnologia. A inteligência artificial é uma ferramenta extraordinária quando usada por quem sabe fazer as perguntas certas. É perigosa quando usada por quem já desistiu de pensar. Não é a máquina que ameaça a nossa humanidade. É a nossa desistência de a exercer.

A intuição humana, aquela que nasce da experiência, da rotina de decidir e de viver com as consequências, não é um luxo do passado. É o recurso mais escasso e mais valioso da era que agora começa. Numa altura em que vivemos aquilo que se pode chamar uma "infodemia de segunda geração", já não apenas o excesso de informação mas a poluição da informação por conteúdos gerados sinteticamente que mimetizam autoridade sem base factual, essa intuição treinada, essa capacidade de parar e perguntar "isto é verdade?", é o que nos separa da capitulação.

Num mundo de máquinas que calculam, precisamos de humanos que pensem. Num mundo de opiniões sem custo, precisamos de decisões com responsabilidade. Num mundo de ruído infinito, precisamos do silêncio dos factos.

A questão já não é se conseguimos construir o futuro com humanidade e rigor. É se ainda queremos.

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### Fontes e dados de referência

**Confiança nos media.** Gallup, 2025: confiança nos EUA caiu para 28%, mínimo histórico desde os anos 70 (68-72%). Republicanos: 8%; Democratas: 54%; menores de 65: máximo 28%. Reuters Institute Digital News Report 2025 (48 países, 6 continentes): confiança global estagnada nos 40%; 58% inseguros na distinção verdade/falsidade. Pew Research, 2024: 52% dos americanos com dificuldade em determinar verdade durante eleições.

**Portugal.** Digital News Report Portugal 2025 (OberCom/ISCTE): confiança nos 54% (7.º entre 48 mercados), mas queda de 8 pontos e nível mais baixo desde 2015. Jovens 18-24: 31% de confiança nos media tradicionais. Global Media Group: rescisões colectivas e crise financeira em 2024-2025. Impresa: perdas de 66,2M euros em 2024. ERC, cobertura legislativas 2025: comentário político = 26% na SIC Notícias, 28% na CNN Portugal. Menos de 100 comentadores fixos ocupam a maioria das rubricas nos canais de notícias. Desertos informativos regionais: Beja, Portalegre, Bragança com cobertura de proximidade quase nula.

**Declínio do jornalismo.** Emprego em jornais nos EUA: queda de 57% entre 2008 e 2020 (de aprox. 71.000 para aprox. 31.000). Média de 2 jornais a fechar por semana (2019-2022), aprox. 70M de pessoas em desertos informativos (Northwestern/Medill). Press Gazette: mais de 3.400 cortes em 2025 (UK+EUA). Stanford GSB: jornalismo de investigação = 1-2% do total; queda significativa a partir de 2019. EBU 2025: custo de 1h de investigação = 22x o custo de 1h de debate em estúdio.

**Desinformação e literacia.** Eurobarómetro 2025: 66% dos europeus expostos a desinformação semanalmente; 61% confiantes em reconhecê-la. Universidade de Canberra (eleições australianas 2025): 60% encontraram desinformação eleitoral. LSE: 1 em 3 eleitores europeus evita notícias por saúde mental. Media Literacy Index 2025: Finlândia em 1.º, Portugal em 15.º. Finlândia integra literacia mediática no currículo desde o pré-escolar.

**IA e decisão automatizada.** Sistema Viogén (Espanha): auditoria independente (Eticas Foundation) cita investigação anterior indicando que avaliação de risco permanece inalterada em 95% dos casos. Boeing 737 MAX: falha na complementaridade humano-máquina (MCAS) contribuiu para dois desastres fatais (2018-2019). Harvard Business School, 2025: IA não substitui julgamento humano; experiência é essencial para contextualizar recomendações. AI Act da UE: plena aplicação 2025-2026. Portugal: Ministério da Justiça testa IA para apoio à decisão judicial desde 2025. Estimativa 2026: 35% das tarefas de redacção jornalística já realizadas por IA generativa.
# A Era da Opinião Sem Factos

*Num mundo onde a opinião substituiu a informação, os comentadores substituíram os jornalistas e as máquinas começam a decidir por nós, formar uma opinião tornou-se o acto mais difícil e mais urgente da nossa era.*

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Confesso: tenho cada vez mais dificuldade em formar opinião sobre o que quer que seja.

Não por falta de informação, mas por excesso dela. Não por falta de vozes, mas por excesso de ruído. Não por desinteresse, mas por exaustão perante um ecossistema mediático que trocou os factos pela performance, o rigor pela velocidade, e o escrutínio pela cavaqueira.

E se isto me acontece a mim, alguém que gosta de pensar pela sua cabeça, que precisa de dados para tomar decisões, que quer formar uma opinião própria com base no que é verdade e não no que alguém acha, imagino o que acontece a todos os outros. Porque na verdade todos precisamos do mesmo. Todos precisamos de factos para decidir. Todos precisamos de verdade para escolher. A democracia, a economia, a vida familiar, a saúde: tudo depende da qualidade da informação que nos chega. E essa qualidade está a degradar-se a uma velocidade que não estamos a acompanhar.


## O triunfo do comentário sobre o facto

Quando a Gallup começou a medir a confiança dos americanos nos media, nos anos 70, entre 68% e 72% das pessoas acreditavam que a imprensa reportava as notícias de forma completa, rigorosa e justa. Em 2025, esse número caiu para 28%, o valor mais baixo de sempre. Cerca de sete em cada dez americanos dizem ter pouca ou nenhuma confiança nos media. Entre os mais jovens, a confiança não ultrapassa os 28%. Na geração com mais de 65 anos, sobe para 43%, mas mesmo esse número seria impensável há duas décadas.

O fenómeno não é americano. É global. O Reuters Institute Digital News Report de 2025, que abrange 48 países em seis continentes, mostra que a confiança global nas notícias está estagnada nos 40% pelo terceiro ano consecutivo. E 58% das pessoas dizem sentir-se inseguras na sua capacidade de distinguir verdade de falsidade nas notícias online. Não estamos a falar de pessoas ignorantes. Estamos a falar da maioria de nós.

Portugal não é uma excepção a esta tendência. É antes um caso particularmente revelador. No Digital News Report de 2025, a confiança dos portugueses nas notícias situa-se nos 54%, colocando o país na 7.ª posição entre 48 mercados. À primeira vista, parece um resultado confortável. Mas a leitura atenta revela outra coisa: este valor representa uma queda de oito pontos e o nível mais baixo desde que a série de medição começou em 2015. Entre os jovens portugueses dos 18 aos 24 anos, a confiança nos media tradicionais caiu para os 31%, com a maioria a preferir TikTok e Instagram como fontes primárias de notícias. Plataformas onde o comentário domina o facto e o algoritmo decide o que é relevante.

O que isto nos diz é que mesmo países com confiança comparativamente alta podem deslizar para a fadiga informativa quando o ambiente se torna saturado, conflituoso e estruturalmente desprovido de recursos no lado da reportagem.


## A fábrica de opiniões sem matéria-prima

Liguem a televisão portuguesa num dia qualquer. SIC Notícias, CNN Portugal, CMTV, a nova RTP Notícias. Contem o tempo. O que encontram é um formato repetido até à exaustão: um jornalista sentado com alguém, um comentador, um "analista", um "especialista", em plena conversa sobre o tema do dia.

Esse alguém, caído sabe-se lá de onde, opina sobre tudo e mais alguma coisa. Diz o que devia ter acontecido. Prevê o que vai acontecer. Explica o que ele acha. Tem rubrica própria. Dá notas, como se a governação fosse um exame de liceu. Há quem tenha até segmentos sobre "quem merece e quem desmerece", como se o exercício do poder público pudesse ser avaliado num sistema binário de estrelas.

Os números confirmam a percepção. Durante a cobertura das eleições legislativas de 2025, um período em que, por lei, existe maior regulação, a Entidade Reguladora para a Comunicação Social documentou que o comentário político representou 26% do tempo na SIC Notícias e 28% na CNN Portugal. Estes são valores de campanha eleitoral, quando a supervisão é mais apertada. Fora desse período, a proporção será certamente superior, embora não exista ainda uma medição sistemática para o quotidiano.

A ERC identificou aliás um padrão estrutural: o pluralismo nos canais de notícias portugueses é frequentemente confundido com a multiplicação de comentadores fixos, onde um grupo restrito de menos de cem pessoas ocupa a esmagadora maioria das rubricas de comentário. A diversidade de vozes não é diversidade de factos. É diversidade de opiniões sobre os mesmos factos, quando os factos existem.

A razão é também económica, e convém dizê-lo sem rodeios. Um estudo da União Europeia de Radiodifusão de 2025 indica que produzir uma hora de jornalismo de investigação custa cerca de 22 vezes mais do que produzir uma hora de debate em estúdio. Vinte e duas vezes. A "cavaqueira" não é apenas um vício editorial. É um modelo de negócio. Quando as receitas caem e as redacções encolhem, o comentário é o substituto mais barato da reportagem. O problema é que um não faz o trabalho do outro.

Depois, e esta é a questão central, ninguém volta atrás. Ninguém pergunta: aquilo que o comentador previu, aconteceu? Os números que citou estavam certos? A solução que propôs era viável? O escrutínio editorial, que deveria ser a espinha dorsal do jornalismo, ficou nas mãos de quem nunca o exerceu sobre si próprio.

O Reuters Institute captou esta contradição com clareza: o público quer que os jornalistas passem o seu tempo a investigar os poderosos e a oferecer profundidade analítica, não a perseguir algoritmos por cliques. As pessoas pedem factos. Recebem opiniões.


## O banco dos réus sem regras

Há um padrão que se repete, noite após noite. Pivots e comentadores colocam decisores, sejam ministros, autarcas, gestores ou dirigentes, num banco de réus improvisado. Fazem-no sem as regras de um tribunal, sem o contraditório de um debate sério, sem o respeito mínimo por quem carrega o peso real das decisões.

É fácil comentar. É extraordinariamente difícil decidir.

Quem decide vive com a incerteza, com a informação incompleta, com as consequências reais de cada escolha. Quem comenta vive com a certeza retrospectiva, o luxo de saber como as coisas "deviam ter sido" depois de terem acontecido. Daniel Kahneman chamou-lhe *hindsight bias*. A televisão portuguesa transformou-o em modelo de negócio.

Numa era em que todos sabem como se devia fazer, muito poucos fazem. E ainda menos se submetem ao escrutínio daquilo que fazem. A assimetria é brutal: quem age é julgado por quem não age. Quem arrisca é avaliado por quem nunca arriscou. E quem comete erros, porque decidir implica sempre errar, é tratado como réu por quem nunca teve de decidir coisa nenhuma.


## A paralisia de quem precisa de verdade para pensar

O problema não é apenas mediático. É civilizacional.

Quando 52% dos americanos admitem ter dificuldade em determinar o que é verdade durante uma eleição, como revelou a Pew Research em 2024, não estamos perante uma falha da educação. Estamos perante uma falha sistémica. A informação tornou-se cognitivamente cara. Não porque não exista, mas porque está enterrada sob camadas de opinião, manipulação e ruído.

Na Europa, o retrato não é muito diferente. O Eurobarómetro de 2025 reporta que 66% dos europeus foram expostos a desinformação pelo menos uma vez na última semana. E embora 61% digam sentir-se confiantes na sua capacidade de a reconhecer, a investigação mostra consistentemente que essa confiança não corresponde à competência real. É a armadilha moderna: alta confiança, competência desigual. Achamos que sabemos distinguir o verdadeiro do falso, mas quando testados, falhamos com frequência preocupante.

Na Austrália, durante as eleições federais de 2025, investigação da Universidade de Canberra revelou que 60% dos adultos encontraram desinformação eleitoral nas duas semanas anteriores ao voto. E o dado mais perturbante não é esse. É que quando as pessoas suspeitam que algo é desinformação, são mais propensas a ignorá-la do que a verificar os factos. O *burnout* político é real. A exaustão informativa gera desistência, não esclarecimento. Um em cada três eleitores europeus afirma evitar as notícias para proteger a sua saúde mental, segundo a London School of Economics.

Pensem nisto. Não estamos a falar de pessoas preguiçosas ou indiferentes. Estamos a falar de pessoas que desistiram. Que se cansaram de nadar num oceano de opiniões sem encontrar terra firme. Que precisam de factos e não os encontram, de verdade e não a conseguem distinguir, de rigor e só encontram espectáculo.


## O deserto onde ninguém conta o que acontece

Para compreender como chegámos aqui, é preciso olhar para o que desapareceu silenciosamente por trás do ruído.

Nos Estados Unidos, o emprego nos jornais caiu 57% entre 2008 e 2020, de cerca de 71.000 para 31.000 profissionais. Entre o final de 2019 e maio de 2022, desapareceram em média dois jornais por semana, deixando cerca de 70 milhões de pessoas naquilo que os investigadores da Northwestern chamam "desertos informativos", comunidades sem cobertura jornalística regular. Em 2025, registaram-se pelo menos 3.400 cortes de empregos no jornalismo no Reino Unido e nos EUA, um número que é explicitamente um sub-registo porque apenas conta redundâncias anunciadas publicamente. No início de 2026, a Associated Press anunciou *buyouts* voluntários e a BBC propôs fechar a sua unidade de jornalismo de investigação nas regiões inglesas, uma unidade que tinha menos de quatro anos de existência.

O jornalismo de investigação, aquele que realmente descobre, apura, verifica e confronta, representa apenas 1% a 2% do total da produção jornalística. E esse número tem vindo a cair. Quando investigadores da Stanford Graduate School of Business analisaram 6 milhões de artigos de jornais americanos, encontraram uma queda significativa no conteúdo investigativo a partir de 2019, coincidindo com as vagas de despedimentos.

Em Portugal, os "desertos" são regionais mas reais. Com o fecho de delegações de jornais nacionais e a crise profunda da imprensa regional, distritos como Beja, Portalegre e Bragança têm hoje uma cobertura de proximidade quase nula. O espaço que o jornalismo deixou vazio foi ocupado por grupos de Facebook e de WhatsApp onde a opinião reina sem contraditório, sem verificação e sem responsabilidade. O grupo Global Media, que publica o Jornal de Notícias, o Diário de Notícias e detém a TSF, atravessou em 2024 e 2025 um dos períodos mais negros da sua história, com rescisões colectivas e uma fragilidade financeira que põe em causa a sobrevivência de títulos centenários. O grupo Impresa registou perdas de 66 milhões de euros em 2024.

Quando a capacidade de produção de factos encolhe, o sistema preenche o tempo de antena com conversa interpretativa de baixo custo. Não é uma falha moral dos jornalistas individualmente. É um efeito de substituição estrutural. E é aqui que a ponte se faz com o que vem a seguir.


## A máquina que decide quando o humano desiste

É neste vazio, de factos, de rigor, de confiança, que as máquinas entram.

Vivemos um momento de inflexão. Pela primeira vez na história, sistemas automatizados de decisão estão a ser integrados em processos que afectam directamente a vida das pessoas: crédito, emprego, justiça, saúde, segurança social. O AI Act da União Europeia, que entrou em plena aplicação entre 2025 e 2026, reconhece formalmente que estes sistemas representam riscos elevados para os direitos fundamentais. Em Portugal, o Ministério da Justiça começou em 2025 a testar sistemas de inteligência artificial para o resumo de sentenças e apoio à decisão judicial, e o Conselho Superior da Magistratura já identificou o "viés de automação" como uma preocupação oficial.

O caso do sistema espanhol Viogén, um algoritmo que avalia o risco de violência doméstica, é ilustrativo. Uma auditoria independente citando investigação anterior reporta que a avaliação de risco do sistema permanece inalterada em 95% dos casos. Noventa e cinco por cento. Quando os profissionais de primeira linha raramente corrigem a máquina, por falta de tempo, de formação ou simplesmente de incentivo para o fazer, o *output* automático torna-se a decisão operacional de facto.

O Boeing 737 MAX tornou-se o caso trágico desta dinâmica. O sistema MCAS automatizava ajustes de estabilização, partindo do princípio de que os pilotos geririam as situações complexas. Mas quando a interface falhou, por falta de transparência no *design* e treino insuficiente, os pilotos hesitaram ou não conseguiram sobrepor-se à máquina. O resultado foram dois desastres fatais em 2018 e 2019. A lição é amarga: quando se assume que humanos e máquinas se complementam naturalmente, sem desenhar essa complementaridade com rigor, o resultado pode ser o pior dos dois mundos.

Investigação recente de Harvard Business School é clara: a inteligência artificial não substitui o julgamento humano. A diferença entre quem beneficia da IA e quem é prejudicado por ela está na experiência e no contexto de quem a usa. Quem tem julgamento suficiente para contextualizar as sugestões da máquina tira partido delas. Quem aceita recomendações genéricas sem capacidade de as avaliar arrisca decisões piores do que se não tivesse usado ferramenta nenhuma.

E aqui reside o paradoxo central do nosso tempo: estamos a delegar decisões às máquinas precisamente no momento em que a nossa capacidade de pensamento crítico está mais degradada. O jornalismo que deveria treinar o nosso músculo analítico substituiu a investigação pela tertúlia. A escola, que deveria ensinar literacia mediática, ainda não a integrou de forma estruturada na maioria dos países. A Finlândia, que lidera consistentemente o Índice de Literacia Mediática europeu, inclui esta formação no currículo desde o pré-escolar. Portugal, embora tenha subido para a 15.ª posição europeia nesse índice, falha gravemente naquilo que se pode chamar "literacia algorítmica", a capacidade de compreender porque é que uma notícia aparece no nosso *feed* e outra não.

A nível global, estima-se que em 2026 cerca de 35% das tarefas de redacção jornalística, como notícias curtas, resumos, meteorologia e resultados desportivos, já sejam realizadas por inteligência artificial generativa. O jornalista humano está a ser empurrado para um de dois papéis: curador de opinião ou, idealmente, investigador. O problema é que o primeiro é barato e o segundo é caro. E o mercado, deixado a si mesmo, escolhe sempre o barato.


## O que podemos fazer, e o que devemos exigir

Não escrevo isto com a pretensão de ter soluções simples para problemas complexos. Escrevo-o porque acredito que nomear o problema com clareza já é, por si só, um acto de resistência numa era que prefere o ruído à reflexão.

O futuro não se constrói com mais opiniões. Constrói-se com melhor informação, melhor escrutínio e mais coragem para decidir com base no que é verdade, mesmo quando a verdade é incómoda.

Precisamos de exigir que os media voltem aos factos. Que os comentadores sejam confrontados com as suas previsões falhadas, porque um comentador que prevê consistentemente o que não acontece não é um analista, é um entertainer. Que os números sejam apresentados com contexto e rigor, não como armas de arremesso. Que o jornalismo de investigação seja tratado como infraestrutura democrática, tão essencial como estradas ou hospitais. É revelador que, no Reino Unido, após os cortes na BBC, o governo tenha sido obrigado a reinvestir em parcerias de notícias locais para combater os desertos informativos, reconhecendo que a opinião centralizada estava a alienar as audiências que mais precisavam de informação.

Precisamos de ensinar literacia mediática desde a escola primária. De criar hábitos de verificação antes de partilha. De reconhecer que a humildade epistémica, admitir que não sabemos, é mais valiosa do que a falsa certeza de quem opina sobre tudo.

E precisamos de uma relação diferente com a tecnologia. A inteligência artificial é uma ferramenta extraordinária quando usada por quem sabe fazer as perguntas certas. É perigosa quando usada por quem já desistiu de pensar. Não é a máquina que ameaça a nossa humanidade. É a nossa desistência de a exercer.

A intuição humana, aquela que nasce da experiência, da rotina de decidir e de viver com as consequências, não é um luxo do passado. É o recurso mais escasso e mais valioso da era que agora começa. Numa altura em que vivemos aquilo que se pode chamar uma "infodemia de segunda geração", já não apenas o excesso de informação mas a poluição da informação por conteúdos gerados sinteticamente que mimetizam autoridade sem base factual, essa intuição treinada, essa capacidade de parar e perguntar "isto é verdade?", é o que nos separa da capitulação.

Num mundo de máquinas que calculam, precisamos de humanos que pensem. Num mundo de opiniões sem custo, precisamos de decisões com responsabilidade. Num mundo de ruído infinito, precisamos do silêncio dos factos.

A questão já não é se conseguimos construir o futuro com humanidade e rigor. É se ainda queremos.

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### Fontes e dados de referência

**Confiança nos media.** Gallup, 2025: confiança nos EUA caiu para 28%, mínimo histórico desde os anos 70 (68-72%). Republicanos: 8%; Democratas: 54%; menores de 65: máximo 28%. Reuters Institute Digital News Report 2025 (48 países, 6 continentes): confiança global estagnada nos 40%; 58% inseguros na distinção verdade/falsidade. Pew Research, 2024: 52% dos americanos com dificuldade em determinar verdade durante eleições.

**Portugal.** Digital News Report Portugal 2025 (OberCom/ISCTE): confiança nos 54% (7.º entre 48 mercados), mas queda de 8 pontos e nível mais baixo desde 2015. Jovens 18-24: 31% de confiança nos media tradicionais. Global Media Group: rescisões colectivas e crise financeira em 2024-2025. Impresa: perdas de 66,2M euros em 2024. ERC, cobertura legislativas 2025: comentário político = 26% na SIC Notícias, 28% na CNN Portugal. Menos de 100 comentadores fixos ocupam a maioria das rubricas nos canais de notícias. Desertos informativos regionais: Beja, Portalegre, Bragança com cobertura de proximidade quase nula.

**Declínio do jornalismo.** Emprego em jornais nos EUA: queda de 57% entre 2008 e 2020 (de aprox. 71.000 para aprox. 31.000). Média de 2 jornais a fechar por semana (2019-2022), aprox. 70M de pessoas em desertos informativos (Northwestern/Medill). Press Gazette: mais de 3.400 cortes em 2025 (UK+EUA). Stanford GSB: jornalismo de investigação = 1-2% do total; queda significativa a partir de 2019. EBU 2025: custo de 1h de investigação = 22x o custo de 1h de debate em estúdio.

**Desinformação e literacia.** Eurobarómetro 2025: 66% dos europeus expostos a desinformação semanalmente; 61% confiantes em reconhecê-la. Universidade de Canberra (eleições australianas 2025): 60% encontraram desinformação eleitoral. LSE: 1 em 3 eleitores europeus evita notícias por saúde mental. Media Literacy Index 2025: Finlândia em 1.º, Portugal em 15.º. Finlândia integra literacia mediática no currículo desde o pré-escolar.

**IA e decisão automatizada.** Sistema Viogén (Espanha): auditoria independente (Eticas Foundation) cita investigação anterior indicando que avaliação de risco permanece inalterada em 95% dos casos. Boeing 737 MAX: falha na complementaridade humano-máquina (MCAS) contribuiu para dois desastres fatais (2018-2019). Harvard Business School, 2025: IA não substitui julgamento humano; experiência é essencial para contextualizar recomendações. AI Act da UE: plena aplicação 2025-2026. Portugal: Ministério da Justiça testa IA para apoio à decisão judicial desde 2025. Estimativa 2026: 35% das tarefas de redacção jornalística já realizadas por IA generativa.
